A vila João Migliari, localizada no tradicional bairro do Tatuapé, na zona leste de São Paulo, está no centro de uma polêmica envolvendo seu tombamento histórico. Construída nos anos 1950 pelo empresário Bruno Lembi, a vila é composta por sobrados geminados que, até 2019, preservavam grande parte de suas características originais. Após a demolição de 55 das 60 casas, o Conpresp (Conselho Municipal de Patrimônio Cultural) agora avalia a possibilidade de destombamento, levantando debates sobre o futuro do patrimônio histórico paulistano.

O contexto histórico da vila João Migliari

A vila João Migliari foi projetada em meio à expansão urbana do Tatuapé, uma região que durante as décadas de 1940 e 1950 começou a receber empreendimentos destinados à classe média. Os sobrados, com suas características de cor salmão, quintais nos fundos e muros baixos, se tornaram um símbolo da arquitetura residencial da época. Até o início dos anos 2000, a vila mantinha sua essência, tornando-se um marco visual e cultural para os moradores do bairro.

O tombamento e o início da disputa

Em 2019, a vila chamou atenção pública ao ser parcialmente demolida. A ação gerou protestos de antigos moradores e de apoiadores da preservação do patrimônio, resultando em um processo de tombamento que foi finalizado em 2023. O Conpresp aprovou o tombamento com cinco votos a favor, um contrário e duas abstenções, reconhecendo o valor histórico e cultural do espaço.

No entanto, os herdeiros de Bruno Lembi, representados pela Voga Empreendimentos, contestaram o tombamento, alegando que a descaracterização causada pelas demolições havia comprometido o valor arquitetônico da vila. Desde então, o debate sobre o destombamento tem gerado divergências entre autoridades, especialistas e moradores.

Impactos das demolições e o estado atual

As demolições realizadas em 2019 resultaram na remoção da maior parte das casas da vila. Atualmente, apenas cinco sobrados permanecem de pé, mas todos se encontram em estado de abandono. O entorno da vila também sofreu mudanças significativas, com a construção de um supermercado e o uso do local como estacionamento.

Para muitos, a situação atual da vila reflete uma tentativa de desvalorizar o espaço histórico. O arquiteto Lucas Chiconi, responsável pelo pedido de tombamento, acusa os proprietários de deliberadamente negligenciar a manutenção para justificar o destombamento. "Não foi o tombamento que deteriorou o espaço, mas sim a falta de cuidado dos proprietários", pontua.

O papel do Conpresp e os desafios do patrimônio cultural

O Conpresp, órgão responsável pelo tombamento e pela preservação de bens culturais em São Paulo, encontra-se no centro das críticas. A composição do conselho, majoritariamente formada por representantes da prefeitura, tem gerado questionamentos sobre a imparcialidade das decisões, especialmente em casos de grande interesse financeiro.

Especialistas alertam para o perigo de precedentes que podem surgir com o destombamento da vila João Migliari e de outros bens, como a Escola Panamericana, também sob avaliação. O arquiteto Chiconi destaca que "destombar bens históricos pode se tornar uma prática recorrente, ameaçando a memória urbana da cidade".

Possíveis soluções para a vila

Apesar dos desafios, há propostas em discussão para revitalizar o espaço sem comprometer sua história. Carlos Vaz, ex-inquilino e arquiteto, sugere transformar os sobrados remanescentes em um centro cultural dedicado ao patrimônio da zona leste. O projeto, chamado de Centro Bruno Lembi, busca preservar a memória da vila enquanto promove atividades culturais e educativas.

Outra alternativa discutida é a revogação da área envoltória, que limita construções ao redor. Segundo Chiconi, essa medida pode viabilizar novos empreendimentos sem comprometer a identidade da vila. Ele cita exemplos bem-sucedidos, como o palacete do shopping Pátio Higienópolis e a Casa das Rosas, que coexistem com empreendimentos modernos.

A visão do especialista

A possível destombamento da vila João Migliari é um reflexo dos desafios enfrentados na preservação do patrimônio cultural em grandes cidades. Especialistas concordam que o abandono e a descaracterização não devem ser usados como justificativas para revogar o tombamento. Em vez disso, é necessário investir em políticas públicas que incentivem a restauração e o uso sustentável desses espaços.

O que está em jogo não é apenas a memória do Tatuapé, mas também o futuro da política de preservação do patrimônio em São Paulo. Caso o destombamento seja aprovado, abre-se um precedente que pode incentivar ações semelhantes em outros bens históricos da cidade, enfraquecendo a proteção cultural.

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