A artista brasileira Anna Maria Maiolino, reconhecida por sua habilidade em transformar a experiência humana em arte, trouxe à tona um de seus trabalhos mais emblemáticos em uma nova exposição no Museu de Arquitetura, Arte e Tecnologia (Maat), em Lisboa. A mostra, intitulada "Terra Poética", foi inaugurada em março de 2026 e ficará em cartaz até 31 de agosto. Entre os destaques, está a recriação da performance "Entrevidas", originalmente concebida em 1981, em pleno contexto da ditadura militar brasileira.
O significado de "Entrevidas" na história da arte
A performance "Entrevidas" tornou-se um marco na obra de Anna Maria Maiolino. Realizada pela primeira vez no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, consistia em dispor ovos numa calçada e caminhar cuidadosamente entre eles, em um ato que simbolizava a fragilidade da vida e o equilíbrio necessário para sobreviver em tempos de opressão. O trabalho foi interpretado como um protesto silencioso, mas potente, contra o regime militar que vigorava no Brasil à época.
Com 22 reinterpretações até hoje, a performance transcendeu seu contexto inicial, assumindo novos significados ao ser recriada em diferentes países e épocas. No caso da exposição em Lisboa, os ovos foram novamente dispostos no chão, mas desta vez à beira do rio Tejo, com convidados atravessando o espaço de mãos erguidas, em um gesto que, segundo Maiolino, simboliza "um pedido de paz em um mundo marcado por violência e guerras".
A exposição "Terra Poética" em Lisboa
"Terra Poética" não se limita à performance "Entrevidas". A exposição é uma celebração da multifacetada carreira de Anna Maria Maiolino, que abrange linguagens como desenho, escultura, vídeo, poesia e performance. Na entrada do Maat, os visitantes são recebidos pela série "Tempestade de Ideias", composta por desenhos que a artista descreve como "um storyboard do pensamento". Esses esboços são sementes de projetos que podem se transformar em esculturas, instalações ou outras formas de arte.
Na galeria central, estão expostas 15 esculturas inéditas, resultado de um trabalho intenso e coletivo. Entre elas, destacam-se peças feitas em barro, com formas que remetem a serpentes e esferas, em tons terrosos que exploram o contraste e a materialidade da argila. Maiolino, que nasceu na Calábria, na Itália, mas construiu sua carreira no Brasil, frequentemente associa o barro à criação, tanto no sentido bíblico quanto no cotidiano doméstico, evocando memórias de sua infância e das tarefas manuais de sua mãe durante a guerra.
Reconhecimento internacional e o convite ao Maat
A exposição em Lisboa marca um momento importante na trajetória de Anna Maria Maiolino. O convite para realizar a mostra no Maat veio em 2024, após a artista ser homenageada com o prestigiado Leão de Ouro da Bienal de Veneza. Apesar de não ser uma retrospectiva, "Terra Poética" é a maior exposição da artista em Portugal e reflete a profundidade de sua obra ao longo de décadas.
João Pinharanda, diretor do Maat e um dos curadores da exposição, destaca a relevância do trabalho de Maiolino. Segundo ele, a artista explora o barro como uma metáfora para a criação humana e o trabalho árduo, mas também como um meio para expressar o lúdico e o intuitivo. "Ela sempre fala da questão do barro como matéria primeira da ideia do Gênesis, a criação do homem", observa Pinharanda.
Desdobramentos e novos contextos para "Entrevidas"
A recriação de "Entrevidas" em Lisboa é apenas o início de uma nova fase para a performance. Depois de sua estreia no Maat, a obra será apresentada no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, a partir de 7 de maio de 2026. A cada nova encenação, "Entrevidas" se adapta ao contexto sociopolítico do momento, mantendo sua essência como uma obra de resistência e reflexão sobre o equilíbrio e a fragilidade da vida.
Em 2023, por exemplo, a performance foi realizada no Staatliche Museen, em Berlim, com a participação do neto de Maiolino, Gabriel Sitchin. Já em Metz, na França, dez anos antes, bailarinos contemporâneos criaram uma coreografia em torno dos ovos, explorando novas dimensões do trabalho original.
A resposta do público e da crítica
A exposição "Terra Poética" tem recebido críticas positivas tanto do público quanto da crítica especializada. Para muitos, o trabalho de Maiolino oferece uma perspectiva única sobre questões universais, ao mesmo tempo que resgata memórias culturais e pessoais. Sua habilidade em unir o cotidiano ao sublime, o político ao pessoal, lhe rendeu reconhecimento global e um lugar de destaque no cenário da arte contemporânea.
A relevância de Anna Maria Maiolino no contexto atual
Em uma época marcada por tensões políticas e sociais, o trabalho de Anna Maria Maiolino ressoa como um apelo à reflexão e à ação. Suas obras, incluindo "Entrevidas", oferecem uma linguagem visual poderosa para discutir temas como resistência, paz, memória e identidade. Elas falam tanto do passado quanto do presente, convidando o público a um diálogo contínuo com a história e a sociedade contemporânea.
A Visão do Especialista
A recriação de "Entrevidas" em Lisboa e sua futura apresentação no Rio de Janeiro destacam a capacidade atemporal da arte de Anna Maria Maiolino de conectar-se com diferentes públicos e contextos. Sua obra, ao mesmo tempo pessoal e universal, continua a ser um canal para reflexões profundas sobre a condição humana, os desafios do nosso tempo e as possibilidades de resistência criativa.
Com o sucesso de "Terra Poética", a artista reafirma seu lugar como uma das figuras mais importantes da arte contemporânea mundial. Sua capacidade de transformar materiais simples, como o barro e os ovos, em discursos complexos e significativos serve como um lembrete do poder transformador da arte. Compartilhe essa reportagem com seus amigos e contribua para a disseminação da cultura e da reflexão crítica.
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