Portugal enfrenta um grave déficit de mão de obra no setor da construção civil, com uma estimativa de 80 mil vagas em aberto, segundo dados divulgados pela Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN). Apesar dos esforços para atrair trabalhadores estrangeiros por meio de mecanismos como a "via verde" de imigração, os números ainda estão muito aquém das necessidades do mercado. Apenas 4,6 mil trabalhadores foram contratados ao abrigo desse programa no último ano, sendo uma parcela reduzida composta por brasileiros.

Trabalhadores em construção em Portugal, com canteiros de obras ao fundo.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

O déficit de trabalhadores na construção em Portugal

A carência de trabalhadores na construção civil em Portugal não é um problema recente. De acordo com a AICCOPN, o setor sofre com um déficit estrutural agravado por fatores como o envelhecimento da força de trabalho, a pouca atratividade da profissão para jovens e o aumento do volume de investimentos públicos e privados em habitação, infraestrutura e equipamentos.

Essa lacuna compromete diretamente o ritmo de execução de projetos essenciais para o desenvolvimento do país, como a construção de moradias e a modernização de infraestruturas.

O papel dos trabalhadores estrangeiros

A contratação de trabalhadores estrangeiros tem sido uma estratégia crucial para mitigar os impactos da escassez de mão de obra. Atualmente, cerca de 100 mil trabalhadores estrangeiros estão empregados no setor da construção em Portugal, provenientes de países como Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Marrocos, Bangladesh e Colômbia. Os brasileiros, embora representem uma comunidade significativa, ainda são uma minoria dentro deste grupo.

De acordo com a AICCOPN, o recurso a trabalhadores estrangeiros é indispensável para preencher vagas de difícil ocupação pela mão de obra local. No entanto, o número de contratações ainda está longe de atender à demanda crescente do setor.

O mecanismo da "via verde" de imigração

Para facilitar o recrutamento de trabalhadores estrangeiros, o governo português implementou a "via verde", um mecanismo que visa agilizar e desburocratizar os processos de imigração laboral. Este programa é parte do Protocolo de Cooperação para a Migração Laboral Regulada (PCMLR), que permite a contratação de trabalhadores de países terceiros com base nas necessidades das empresas.

No entanto, os resultados ainda são tímidos. Em um período de 12 meses, apenas 4.646 trabalhadores foram contratados por meio deste sistema, representando menos de 10% do déficit estimado. Desses, apenas 34 processos envolvem brasileiros, um número que ressalta a necessidade de ações mais efetivas para atrair essa comunidade.

Impactos no mercado e na economia

O déficit de trabalhadores na construção civil tem repercussões diretas no mercado e na economia portuguesa. Obras atrasadas, aumento nos custos de construção e uma pressão crescente nos preços dos imóveis são algumas das consequências mais visíveis. Além disso, a incapacidade de atender às demandas do setor pode comprometer metas nacionais de desenvolvimento, como a ampliação da oferta de habitação acessível.

Especialistas alertam que esse cenário também pode prejudicar a competitividade internacional de Portugal, especialmente em um momento em que o país busca consolidar-se como um destino atrativo para investimentos estrangeiros.

Medidas em discussão para solucionar o problema

Embora a "via verde" seja um passo importante, a AICCOPN enfatiza que medidas adicionais são necessárias para lidar com o déficit de mão de obra. Entre as propostas estão:

  • Valorização da profissão e melhores condições de trabalho no setor.
  • Reforço da formação profissional para atrair jovens portugueses.
  • Promoção de campanhas internacionais para atrair trabalhadores qualificados.
  • Melhoria na integração e regulamentação dos trabalhadores estrangeiros.

O presidente da AICCOPN, Ricardo Gomes, destaca que uma abordagem multifacetada será essencial para resolver este problema estrutural, garantindo tanto a sustentabilidade do setor quanto o respeito aos direitos dos trabalhadores.

O papel dos brasileiros na construção em Portugal

Apesar de representarem uma parcela pequena dos contratados pela "via verde", os brasileiros têm um papel significativo no setor, sobretudo em funções operacionais e técnicas. Historicamente, a comunidade brasileira em Portugal tem contribuído para diversos setores da economia, e a construção civil não é exceção.

No entanto, o baixo número de contratações formais por meio de programas regulados levanta questões sobre a necessidade de estratégias mais eficazes para atrair e integrar essa mão de obra. Isso inclui a simplificação de processos burocráticos e a oferta de incentivos para trabalhadores e empresas.

A Visão do Especialista

Como correspondente internacional com foco em economia e trabalho, é evidente que o déficit de trabalhadores na construção civil de Portugal é um desafio complexo, que exige soluções integradas e sustentáveis. O mecanismo da "via verde" é um avanço importante, mas insuficiente diante da dimensão do problema.

Para o futuro, é crucial que Portugal intensifique a atração de trabalhadores estrangeiros, especialmente de comunidades com forte histórico de contribuição, como os brasileiros. Além disso, a valorização da profissão e a formação de jovens locais devem ser priorizadas para assegurar a sustentabilidade do setor no longo prazo.

Com a construção desempenhando um papel estratégico na economia portuguesa, o sucesso em resolver esse déficit de mão de obra será determinante para o crescimento do país nos próximos anos.

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