Em um movimento que alterou profundamente a dinâmica de segurança e convivência em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, o Comando Vermelho (CV) instalou uma célula do tráfico em uma área historicamente dominada pela milícia. Em menos de dois meses, a facção criminosa consolidou sua presença em cerca de 55 mil metros quadrados, entre a Estrada Santa Maura e a Rua Abadiana, próximo à comunidade Asa Branca. Esse avanço, registrado desde o final de 2025, trouxe uma nova lógica de medo e violência que tem transformado a rotina de moradores e comerciantes da região.

Cena de aterrorização em Jacarepaguá, com moradores assustados em frente a célula do tráfico instalada pela milícia.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

O contexto histórico: disputa territorial entre milícia e tráfico

Jacarepaguá, assim como outras áreas da Zona Oeste do Rio, tem sido palco de disputas históricas entre grupos armados. A milícia dominava a região há anos, mantendo o controle sobre serviços informais e extorquindo moradores e comerciantes. No entanto, o avanço do CV reflete uma mudança estratégica na expansão da facção, que busca consolidar sua influência em territórios urbanos, tradicionalmente controlados por milícias. Esse modelo de ocupação representa uma ameaça crescente à segurança pública e à estabilidade local.

A estratégia de ocupação do Comando Vermelho

Cena de aterrorização em Jacarepaguá, com moradores assustados em frente a célula do tráfico instalada pela milícia.
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Diferentemente de outras ocupações do CV, que envolvem barricadas e confrontos abertos, a entrada na área de Jacarepaguá ocorreu de forma mais discreta. Os criminosos, muitos deles moradores locais, utilizaram sua proximidade com a comunidade para estabelecer um domínio inicial baseado em extorsão, circulação armada e ameaças. Essa abordagem permitiu que a facção se instalasse rapidamente e sem resistência significativa.

Relatos dos moradores: o medo no cotidiano

Os relatos dos moradores ilustram o impacto direto da ocupação. Muitos afirmam que o clima de tensão se intensificou após o réveillon de 2026, quando tiros para o alto e gritos de "Agora é o Comando" marcaram a mudança de poder. Comerciantes foram obrigados a pagar valores extorsivos para manter seus negócios abertos, enquanto outros decidiram abandonar seus pontos devido às ameaças. "Eles conhecem todos ali, sabem onde os comerciantes moram, quem são seus parentes", relatou uma moradora.

Indicadores de violência na região

Os dados do 31º BPM (Recreio dos Bandeirantes) mostram um aumento significativo em ações criminosas. Em janeiro de 2026, foram apreendidas 22 armas de fogo, o maior número para o mês desde 2003. Além disso, o número de menores infratores apreendidos no primeiro trimestre foi de 75, um aumento considerável comparado a 2025. Esses números indicam o impacto direto da nova dinâmica criminal na região.

Comparativo das apreensões no 31º BPM

Mês/Ano Armas Apreendidas Menores Infratores
Janeiro 2025 12 15
Janeiro 2026 22 36

Operações policiais e desafios enfrentados

Em 11 de fevereiro de 2026, a polícia realizou uma operação na área, resultando na prisão de um homem e na apreensão de dois adolescentes, além de armas e drogas. No entanto, o suposto líder do grupo conseguiu escapar pela área de mata, que agora serve como rota de fuga e circulação para os criminosos. A PM reconhece o aumento de roubos de veículos e assaltos a pedestres, mas insiste que não há evidências de expansão territorial do CV.

Especialistas apontam o risco de "territórios sob influência"

Segundo a socióloga Carolina Grillo, o avanço do CV em Jacarepaguá é característico de um modelo de ocupação denominado "território sob influência". Essa estratégia permite que grupos criminosos estabeleçam controle gradativo, começando por extorsões e circulações armadas e evoluindo para pontos fixos de venda de drogas e domínio territorial. A especialista alerta que a interrupção precoce desse processo é crucial para evitar que a situação se agrave.

Características do modelo "território sob influência"

  • Extorsões financeiras a comerciantes e moradores.
  • Circulação armada intermitente.
  • Imposição de regras locais.
  • Instalação de pontos de tráfico de drogas.

Impacto no comércio e na economia local

Além da violência física e psicológica, o domínio do CV tem gerado prejuízos econômicos. Comerciantes, muitos deles estabelecidos há décadas, estão abandonando seus negócios devido às cobranças extorsivas. A perda de renda e o fechamento de estabelecimentos contribuem para a deterioração econômica da região, que já sofre com infraestrutura precária.

A Visão do Especialista

O avanço do Comando Vermelho em Jacarepaguá ilustra um cenário preocupante de transformação na dinâmica de segurança pública no Rio de Janeiro. A instalação de células como essa reflete a adaptação das facções às áreas urbanizadas, onde o controle é mais difícil de ser identificado e combatido pela polícia. Se as denúncias de moradores não forem tratadas com seriedade e ações efetivas não forem tomadas, o risco de controle total do território é iminente.

Segundo especialistas, é essencial reforçar o policiamento e adotar estratégias que combinem inteligência operacional e apoio comunitário. A interrupção precoce do modelo de "território sob influência" é crucial para evitar que o crime organizado se estabeleça de maneira permanente.

Cena de aterrorização em Jacarepaguá, com moradores assustados em frente a célula do tráfico instalada pela milícia.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

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