Uma substância amplamente utilizada na fabricação de plásticos, o di-2-etilhexilftalato (DEHP), pode estar associada a quase 2 milhões de partos prematuros registrados globalmente em 2018. Essa é a principal conclusão de um estudo publicado na revista eClinicalMedicine, do grupo The Lancet. O DEHP pertence ao grupo dos ftalatos, compostos químicos conhecidos como plastificantes, usados para tornar o plástico mais flexível, durável e transparente.

Mulheres expostas a compostos plásticos em ambiente de trabalho.
Fonte: atarde.com.br | Reprodução

O que são os ftalatos e como eles afetam a saúde?

Os ftalatos, incluindo o DEHP, fazem parte dos desreguladores endócrinos, substâncias químicas que interferem no sistema hormonal humano. Durante a gravidez, o equilíbrio hormonal é crucial para o desenvolvimento do feto e a manutenção de uma gestação saudável. A exposição a esses compostos pode ocorrer por ingestão, inalação ou absorção pela pele, devido ao contato com alimentos embalados, cosméticos, produtos de higiene e outros itens amplamente utilizados no dia a dia.

Estudos toxicológicos indicam que o DEHP pode desencadear uma série de efeitos adversos, como processos inflamatórios, alterações no desenvolvimento da placenta e estresse oxidativo no sistema reprodutivo. Esses fatores estão diretamente relacionados ao aumento do risco de partos prematuros, que ocorrem antes de 37 semanas de gestação.

Impactos globais: quem são os mais afetados?

De acordo com o estudo, cerca de 8,74% dos partos prematuros registrados globalmente em 2018 podem estar associados à exposição ao DEHP. O impacto foi mais acentuado em regiões de baixa e média renda. No Oriente Médio e no sul da Ásia, por exemplo, o DEHP foi relacionado a aproximadamente 1,07 milhão de nascimentos prematuros, representando mais da metade do total global estimado.

Na África, a estimativa foi de cerca de 511 mil partos prematuros atribuíveis ao composto, enquanto países do Leste Asiático e do Pacífico registraram cerca de 226 mil casos. Em contraste, regiões de alta renda apresentaram números significativamente menores. No Canadá e na Austrália, foram contabilizados cerca de 1,4 mil e 2,1 mil casos, respectivamente. Já na Europa e nos Estados Unidos, os números foram intermediários, com 16,7 mil e 35,6 mil partos prematuros associados ao DEHP.

Por que a prematuridade é um problema tão grave?

O parto prematuro é a principal causa de morte entre crianças menores de 5 anos, sendo responsável por cerca de 1 milhão de mortes de recém-nascidos por ano. Além disso, bebês que nascem antes do tempo enfrentam um maior risco de condições como a síndrome do desconforto respiratório, problemas neurológicos e outras complicações de saúde ao longo da vida.

Pesquisadores destacam que a prematuridade não é apenas uma questão de sobrevivência imediata, mas também de qualidade de vida a longo prazo. Estudos apontam que esses bebês têm maior propensão a desenvolver dificuldades cognitivas, problemas de aprendizado e doenças crônicas na idade adulta.

Como reduzir a exposição aos ftalatos?

A exposição ao DEHP e a outros ftalatos é considerada onipresente, o que dificulta sua completa eliminação. No entanto, algumas medidas podem ser adotadas para minimizar os riscos:

  • Evitar o uso de plásticos para armazenamento de alimentos, especialmente em altas temperaturas.
  • Optar por produtos rotulados como "livres de ftalatos".
  • Reduzir o consumo de alimentos processados, frequentemente embalados em plásticos contendo ftalatos.
  • Priorizar o uso de cosméticos e produtos de higiene pessoal com ingredientes naturais e sem aditivos químicos.

Regulamentação e esforços globais

A regulamentação do uso de ftalatos varia amplamente entre os países. Na União Europeia, por exemplo, o DEHP é classificado como uma substância de alta preocupação e seu uso é restrito em diversos produtos. Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA) e a Environmental Protection Agency (EPA) monitoram o uso de ftalatos, mas ainda existem lacunas regulatórias significativas.

No entanto, especialistas alertam que, em países de renda baixa e média, onde a exposição é maior, a fiscalização e a conscientização ainda são limitadas. Isso torna essencial a implementação de políticas públicas mais rigorosas e campanhas educativas para reduzir os riscos associados a esses compostos.

O papel da ciência e os próximos passos

Estudos como o publicado na eClinicalMedicine reforçam a necessidade de mais pesquisas sobre os efeitos dos ftalatos na saúde humana, especialmente em populações vulneráveis. Além disso, é fundamental que governos, indústrias e a sociedade civil trabalhem juntos para promover o uso de alternativas menos tóxicas na produção de plásticos e outros produtos.

A Visão do Especialista

Os dados apresentados são alarmantes e evidenciam a necessidade de uma ação global coordenada para reduzir a exposição aos ftalatos, especialmente em países mais vulneráveis. Embora seja impossível eliminar completamente essas substâncias de nossas vidas, pequenas mudanças no comportamento individual e avanços na regulamentação podem fazer uma diferença significativa.

Para as futuras gerações, é crucial que as indústrias invistam em tecnologias mais seguras e que políticas públicas incentivem a substituição de compostos nocivos por alternativas sustentáveis. A ciência desempenha um papel essencial nesse processo, fornecendo os dados necessários para embasar decisões informadas e proteger a saúde global.

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