O orçamento de R$ 134 milhões para a produção do filme Dark Horse, que conta a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, tem gerado grande repercussão e polêmica. Em entrevista ao programa Paulo Figueiredo Show, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro afirmou que o valor é "até barato" em comparação aos padrões de Hollywood. A produção está no centro de uma controvérsia após o vazamento de áudios envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, principal investidor do projeto.

Homem de terno e gravata fala em frente a uma mesa com um papel com o valor de R$ 134 milhões.
Fonte: www.poder360.com.br | Reprodução

Os números por trás de Dark Horse

O orçamento estipulado para Dark Horse, equivalente a cerca de US$ 24 milhões, supera os custos de produção de diversos filmes vencedores do Oscar. Para efeito de comparação, o sul-coreano Parasita, vencedor do prêmio em 2020, teve um orçamento de apenas US$ 11,4 milhões, enquanto Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, vencedor de 2023, foi produzido por US$ 20 milhões. Já no Brasil, obras como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto custaram, respectivamente, R$ 45 milhões e R$ 28 milhões.

Filme Orçamento
Parasita US$ 11,4 milhões
Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo US$ 20 milhões
Ainda Estou Aqui (Brasil) R$ 45 milhões
O Agente Secreto (Brasil) R$ 28 milhões
Dark Horse R$ 134 milhões

O enredo e os protagonistas do filme

De acordo com Eduardo Bolsonaro, o alto custo do filme é justificado pela contratação de profissionais renomados. O roteiro foi elaborado pelo diretor norte-americano Cyrus Nowrasteh, conhecido por trabalhos de destaque em Hollywood. Além disso, o papel de Jair Bolsonaro será interpretado por Jim Caviezel, ator de A Paixão de Cristo. Eduardo enfatizou que a escolha de Caviezel, descrito como "a principal estrela do cenário conservador", demandou um investimento significativo.

O financiamento e os desdobramentos judiciais

A produção de Dark Horse enfrenta dificuldades financeiras desde que Daniel Vorcaro, banqueiro e principal financiador do projeto, foi preso em maio de 2025 no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga supostas fraudes bilionárias e crimes financeiros no Banco Master. Segundo informações, Vorcaro teria repassado R$ 62 milhões ao projeto até sua detenção.

Após a interrupção dos repasses, um áudio vazado revelou que o senador Flávio Bolsonaro tentou intermediar a liberação de mais recursos junto a Vorcaro para finalizar o filme. No áudio, Flávio menciona dívidas pendentes e expressa solidariedade ao banqueiro, chamando-o de "irmão". A divulgação dos áudios levantou questionamentos sobre a origem dos recursos e a relação da família Bolsonaro com o financiador.

Investigação e implicações políticas

O financiamento de Dark Horse se tornou alvo de investigações no Supremo Tribunal Federal (STF) e pela Polícia Federal (PF). Uma das principais linhas de apuração mira o Havengate Development Fund LP, um fundo de investimento com sede no Texas, gerido por um advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. Autoridades buscam rastrear se os valores alocados no fundo foram utilizados exclusivamente na produção do filme ou também para financiar a permanência de Eduardo nos Estados Unidos.

Eduardo Bolsonaro, no entanto, nega as acusações e afirma que seu envolvimento financeiro se limitou ao aporte de US$ 50 mil, valor posteriormente reembolsado pela produtora GoUp. Ele também declarou que o título de "produtor-executivo" atribuído a ele em documentos vazados era apenas provisório.

CPI do Banco Master: cenário e expectativas

O senador Flávio Bolsonaro defendeu a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o Banco Master. Em nota, ele afirmou que o financiamento de Dark Horse foi "um caso de patrocínio privado para um filme privado, sem o uso de verbas públicas ou da Lei Rouanet". Segundo ele, é necessário separar "os inocentes dos bandidos" na apuração dos fatos relacionados a Vorcaro e ao banco.

Por outro lado, críticos da família Bolsonaro questionam a transparência da captação de recursos e a possível utilização de intermediários para facilitar os repasses financeiros ao projeto. A defesa de Vorcaro, por sua vez, optou por não comentar os desdobramentos da Operação Compliance Zero.

A visão do especialista

Especialistas em políticas públicas e financiamento cultural destacam que o caso de Dark Horse coloca em evidência lacunas na regulamentação de projetos cinematográficos financiados por capital privado. Apesar de o filme não utilizar recursos públicos diretamente, o envolvimento de figuras políticas e as suspeitas de irregularidade no financiamento podem trazer implicações legais e éticas.

No cenário internacional, orçamentos elevados para filmes biográficos não são incomuns, especialmente quando envolvem nomes de destaque em Hollywood. Contudo, o caso de Dark Horse é singular no Brasil, onde o cinema enfrenta desafios financeiros significativos. A atenção das autoridades e o andamento das investigações determinarão se o projeto será concluído e sob quais condições.

Independente do desfecho, o debate sobre transparência e governança no financiamento cultural no Brasil deve ganhar fôlego nos próximos meses, com possíveis reflexos no cenário político e na regulamentação do setor.

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