O filme "Dark Horse", uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi alvo de uma perícia privada que revelou um custo total de US$ 13,3 milhões (cerca de R$ 75 milhões). A informação foi apresentada pela produtora Go Up Entertainment no âmbito de uma investigação que apura possíveis irregularidades no financiamento da produção, envolvendo recursos de um contrato público no Brasil.

O surgimento de "Dark Horse" e os custos declarados
De acordo com a perícia anexada ao processo, o orçamento total do longa foi dividido entre gastos nos Estados Unidos, estimados em R$ 54,2 milhões, e despesas no Brasil, que alcançaram R$ 20,9 milhões. O projeto, que ainda não foi lançado, conta com um elenco majoritariamente norte-americano, incluindo o ator Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro.
Ainda segundo a Go Up Entertainment, o orçamento inicial aprovado para o filme era de US$ 16 milhões (aproximadamente R$ 89,7 milhões). Esse valor é significativamente menor do que os US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) que, segundo o portal The Intercept Brasil, teriam sido negociados pelo senador Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Investigações e suspeitas de irregularidades
O foco da investigação gira em torno da suspeita de que recursos do contrato entre o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Prefeitura de São Paulo, firmado no valor de R$ 108 milhões, possam ter sido desviados para viabilizar o financiamento de "Dark Horse". Karina Ferreira da Gama, representante do ICB e também proprietária da Go Up Entertainment, é uma das principais investigadas e foi alvo de uma operação da Polícia Civil no dia 1º de junho.
Segundo o relatório pericial, o fundo utilizado para captar recursos, o Heavengate Development Fund LP, transferiu US$ 13,3 milhões para a produção do filme. No Brasil, os valores foram recebidos em uma conta no Banco do Brasil, sendo R$ 18,4 milhões transferidos via Pix. A perícia aponta que as transações possuem origem privada, respaldadas por contratos de investimento e comprovantes bancários.
O papel de Daniel Vorcaro e as suspeitas sobre Eduardo Bolsonaro
As investigações também abrangem o envolvimento de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, que teria transferido recursos para o filme através do fundo Heavengate Development e da empresa Entrepay. Vorcaro foi preso em novembro de 2025 pela Operação Compliance Zero, que investiga fraudes financeiras atribuídas ao banco que ele dirigia.
Além disso, a Polícia Federal investiga se parte dos recursos destinados ao filme foi usada para financiar a permanência do ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Eduardo reside no país desde fevereiro de 2025 e enfrenta acusações da Procuradoria-Geral da República (PGR) por supostamente ter articulado sanções internacionais contra autoridades brasileiras em colaboração com o governo de Donald Trump.
Detalhamento dos gastos da produção
O relatório detalha as despesas da produção de "Dark Horse" em diferentes etapas. Nos Estados Unidos, os custos foram alocados da seguinte forma:
- Desenvolvimento do projeto: US$ 383 mil
- Soft-production: US$ 2,6 milhões
- Pré-produção: US$ 2,6 milhões
- Produção e filmagem: US$ 1,9 milhão
- Pós-produção: US$ 1,9 milhão
No Brasil, a produção e filmagem totalizaram US$ 3,7 milhões.
Repercussões políticas e jurídicas
Após a divulgação de áudios pelo The Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro confirmou a autenticidade das gravações em que expressa preocupação com atrasos nos pagamentos relacionados ao filme. No entanto, ele alegou que os repasses realizados por Vorcaro foram legais e não envolveram contrapartidas.
O caso chamou a atenção de autoridades e da opinião pública, uma vez que o financiamento de obras cinematográficas com verbas públicas é um tema sensível no Brasil. O impacto das suspeitas sobre o filme e as possíveis conexões políticas com figuras públicas têm levantado questionamentos sobre transparência e ética no uso de recursos destinados à cultura.
Críticas e desafios no mercado cinematográfico
Especialistas do setor apontam que produções biográficas de figuras políticas costumam gerar polêmica e interesse, mas também enfrentam desafios significativos. A associação de "Dark Horse" com investigações de desvio de recursos pode impactar negativamente sua recepção no mercado internacional, além de reduzir seu potencial de bilheteria no Brasil.
Outro ponto levantado é o impacto dessa controvérsia na reputação do cinema brasileiro, que tem lutado para atrair investimentos e aumentar sua presença no cenário global. A vinculação entre o financiamento de obras culturais e suspeitas de irregularidades pode minar a confiança de investidores privados e públicos no setor.
A Visão do Especialista
O caso envolvendo "Dark Horse" não apenas reflete os desafios éticos e financeiros do setor audiovisual, mas também expõe a complexa relação entre cultura e política no Brasil. A investigação em curso poderá trazer desdobramentos significativos, tanto para os envolvidos quanto para o futuro das políticas de incentivo à cultura no país.
Especialistas indicam que a transparência na captação e aplicação de recursos é essencial para garantir a sustentabilidade das produções cinematográficas. Além disso, é fundamental que as investigações sejam conduzidas de maneira imparcial, garantindo que eventuais irregularidades sejam identificadas e os responsáveis, responsabilizados.
O lançamento de "Dark Horse" será um teste não só para o mercado de biografias políticas no Brasil, mas também para a credibilidade do setor cultural como um todo. Resta saber como o público e a indústria cinematográfica reagirão a essa obra e às controvérsias que a cercam.
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