O filme "Dark Horse", uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi alvo de uma perícia privada que revelou um custo total de US$ 13,3 milhões (cerca de R$ 75 milhões). A informação foi apresentada pela produtora Go Up Entertainment no âmbito de uma investigação que apura possíveis irregularidades no financiamento da produção, envolvendo recursos de um contrato público no Brasil.

Jornalista segurando um roteiro de filme sobre Bolsonaro em uma mesa de edição com uma calculadora ao lado.
Fonte: www.brasil247.com | Reprodução

O surgimento de "Dark Horse" e os custos declarados

De acordo com a perícia anexada ao processo, o orçamento total do longa foi dividido entre gastos nos Estados Unidos, estimados em R$ 54,2 milhões, e despesas no Brasil, que alcançaram R$ 20,9 milhões. O projeto, que ainda não foi lançado, conta com um elenco majoritariamente norte-americano, incluindo o ator Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro.

Ainda segundo a Go Up Entertainment, o orçamento inicial aprovado para o filme era de US$ 16 milhões (aproximadamente R$ 89,7 milhões). Esse valor é significativamente menor do que os US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) que, segundo o portal The Intercept Brasil, teriam sido negociados pelo senador Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Investigações e suspeitas de irregularidades

O foco da investigação gira em torno da suspeita de que recursos do contrato entre o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Prefeitura de São Paulo, firmado no valor de R$ 108 milhões, possam ter sido desviados para viabilizar o financiamento de "Dark Horse". Karina Ferreira da Gama, representante do ICB e também proprietária da Go Up Entertainment, é uma das principais investigadas e foi alvo de uma operação da Polícia Civil no dia 1º de junho.

Segundo o relatório pericial, o fundo utilizado para captar recursos, o Heavengate Development Fund LP, transferiu US$ 13,3 milhões para a produção do filme. No Brasil, os valores foram recebidos em uma conta no Banco do Brasil, sendo R$ 18,4 milhões transferidos via Pix. A perícia aponta que as transações possuem origem privada, respaldadas por contratos de investimento e comprovantes bancários.

O papel de Daniel Vorcaro e as suspeitas sobre Eduardo Bolsonaro

As investigações também abrangem o envolvimento de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, que teria transferido recursos para o filme através do fundo Heavengate Development e da empresa Entrepay. Vorcaro foi preso em novembro de 2025 pela Operação Compliance Zero, que investiga fraudes financeiras atribuídas ao banco que ele dirigia.

Além disso, a Polícia Federal investiga se parte dos recursos destinados ao filme foi usada para financiar a permanência do ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Eduardo reside no país desde fevereiro de 2025 e enfrenta acusações da Procuradoria-Geral da República (PGR) por supostamente ter articulado sanções internacionais contra autoridades brasileiras em colaboração com o governo de Donald Trump.

Detalhamento dos gastos da produção

O relatório detalha as despesas da produção de "Dark Horse" em diferentes etapas. Nos Estados Unidos, os custos foram alocados da seguinte forma:

  • Desenvolvimento do projeto: US$ 383 mil
  • Soft-production: US$ 2,6 milhões
  • Pré-produção: US$ 2,6 milhões
  • Produção e filmagem: US$ 1,9 milhão
  • Pós-produção: US$ 1,9 milhão

No Brasil, a produção e filmagem totalizaram US$ 3,7 milhões.

Repercussões políticas e jurídicas

Após a divulgação de áudios pelo The Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro confirmou a autenticidade das gravações em que expressa preocupação com atrasos nos pagamentos relacionados ao filme. No entanto, ele alegou que os repasses realizados por Vorcaro foram legais e não envolveram contrapartidas.

O caso chamou a atenção de autoridades e da opinião pública, uma vez que o financiamento de obras cinematográficas com verbas públicas é um tema sensível no Brasil. O impacto das suspeitas sobre o filme e as possíveis conexões políticas com figuras públicas têm levantado questionamentos sobre transparência e ética no uso de recursos destinados à cultura.

Críticas e desafios no mercado cinematográfico

Especialistas do setor apontam que produções biográficas de figuras políticas costumam gerar polêmica e interesse, mas também enfrentam desafios significativos. A associação de "Dark Horse" com investigações de desvio de recursos pode impactar negativamente sua recepção no mercado internacional, além de reduzir seu potencial de bilheteria no Brasil.

Outro ponto levantado é o impacto dessa controvérsia na reputação do cinema brasileiro, que tem lutado para atrair investimentos e aumentar sua presença no cenário global. A vinculação entre o financiamento de obras culturais e suspeitas de irregularidades pode minar a confiança de investidores privados e públicos no setor.

A Visão do Especialista

O caso envolvendo "Dark Horse" não apenas reflete os desafios éticos e financeiros do setor audiovisual, mas também expõe a complexa relação entre cultura e política no Brasil. A investigação em curso poderá trazer desdobramentos significativos, tanto para os envolvidos quanto para o futuro das políticas de incentivo à cultura no país.

Especialistas indicam que a transparência na captação e aplicação de recursos é essencial para garantir a sustentabilidade das produções cinematográficas. Além disso, é fundamental que as investigações sejam conduzidas de maneira imparcial, garantindo que eventuais irregularidades sejam identificadas e os responsáveis, responsabilizados.

O lançamento de "Dark Horse" será um teste não só para o mercado de biografias políticas no Brasil, mas também para a credibilidade do setor cultural como um todo. Resta saber como o público e a indústria cinematográfica reagirão a essa obra e às controvérsias que a cercam.

Compartilhe essa reportagem com seus amigos para que mais pessoas possam entender os desdobramentos desse caso que une cinema, política e investigação.