O Brasil enfrenta uma preocupante realidade: a cada dia, pelo menos dois casos de exercício ilegal da medicina chegam à Justiça, segundo dados divulgados pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Entre 2012 e 2023, foram registrados 9.566 casos, muitos dos quais resultaram em sequelas graves ou até mesmo mortes. A gravidade da situação levou o CFM a lançar a plataforma "Medicina Segura", com o objetivo de monitorar e combater essas práticas criminosas.

O que é exercício ilegal da medicina?

O exercício ilegal da medicina ocorre quando indivíduos sem formação ou habilitação legal realizam ações exclusivas da profissão médica, conforme definido pela Lei nº 12.842/2013, conhecida como Lei do Ato Médico. Esses atos incluem diagnósticos, prescrições e intervenções terapêuticas, entre outros.

Nos últimos anos, esse tipo de crime tem sido associado principalmente à realização de procedimentos estéticos invasivos, como aplicação de substâncias injetáveis ou cirurgias realizadas por pessoas que não possuem formação adequada.

Impacto no mercado e na sociedade

Os casos de exercício ilegal da medicina não afetam apenas as vítimas diretas, mas também prejudicam a credibilidade do setor de saúde como um todo. Profissionais habilitados enfrentam concorrência desleal e um aumento na desconfiança pública, enquanto pacientes são expostos a riscos desnecessários.

Além disso, a ampliação de práticas irregulares impacta negativamente os sistemas de saúde pública, que frequentemente precisam absorver os custos do tratamento das complicações geradas por procedimentos inadequados.

O papel das redes sociais na disseminação do problema

As redes sociais têm se tornado um terreno fértil para a divulgação de serviços médicos falsos. Promessas de resultados rápidos e preços reduzidos frequentemente atraem pacientes desavisados. A falta de regulamentação adequada no ambiente digital agrava o problema, facilitando a atuação de indivíduos não habilitados.

Essa questão levanta a necessidade de um maior controle sobre anúncios de serviços de saúde e a conscientização da população sobre os riscos envolvidos em confiar em profissionais sem certificação.

"Medicina Segura": uma ferramenta contra a ilegalidade

Em resposta ao aumento dos casos, o CFM lançou a plataforma "Medicina Segura", disponível em https://medicinasegura.cfm.org.br/. A ferramenta é voltada exclusivamente para médicos habilitados, permitindo que eles denunciem situações de exercício ilegal da profissão, com acompanhamento completo do processo.

Os médicos cadastrados podem acessar a plataforma utilizando autenticação em dois fatores, garantindo a segurança das informações. Um formulário detalhado permite o relato de casos com dados sobre o paciente, procedimento realizado, danos causados e informações do responsável pelo atendimento irregular.

Como as denúncias serão tratadas?

As informações coletadas pela plataforma serão enviadas aos Conselhos Regionais de Medicina (CRM) dos estados onde ocorreram os casos. Esses órgãos atuarão em parceria com entidades como Vigilância Sanitária, Ministério Público e Polícia Civil para garantir a fiscalização e punir os responsáveis.

Relatórios nacionais serão gerados a cada quatro meses, permitindo o mapeamento de áreas com maior incidência de irregularidades e a adoção de medidas preventivas mais eficazes.

O impacto da Lei do Ato Médico

Desde sua promulgação em 2013, a Lei nº 12.842 (Lei do Ato Médico) estabelece com clareza quais atos são privativos dos médicos. Apesar disso, a violação dessa legislação permanece uma preocupação constante, especialmente em áreas como estética e terapias alternativas.

O CFM tem se esforçado para garantir o cumprimento da lei, mas os desafios são muitos, incluindo a falta de fiscalização adequada e a dificuldade em identificar e punir os infratores.

A importância da conscientização pública

Um aspecto essencial do combate ao exercício ilegal da medicina é a educação da população. Muitos pacientes não conseguem identificar se estão sendo atendidos por profissionais habilitados, especialmente quando esses indivíduos se apresentam como médicos qualificados.

Campanhas informativas, como as realizadas pelo CFM, são fundamentais para alertar sobre os riscos de procurar serviços não regulamentados e para ensinar a verificar a autenticidade das credenciais dos profissionais.

Como verificar a habilitação de um médico?

  • Consulte o registro do médico no site do Conselho Federal de Medicina (https://portal.cfm.org.br/).
  • Confirme a autenticidade do registro e se as especializações declaradas correspondem às certificações.
  • Desconfie de preços muito baixos ou promessas irreais.
  • Evite contratar serviços médicos anunciados apenas em redes sociais sem comprovação.

Medidas para coibir o problema

A luta contra o exercício ilegal da medicina exige a colaboração de diversos setores. O fortalecimento da fiscalização por parte dos órgãos competentes e a criação de mecanismos legais mais rígidos são medidas indispensáveis.

Além disso, a parceria entre entidades médicas, autoridades judiciais e órgãos reguladores pode criar um ambiente menos favorável à atuação de falsos profissionais.

A Visão do Especialista

O aumento dos casos de exercício ilegal da medicina no Brasil é uma questão de saúde pública que exige atenção imediata. A iniciativa do CFM em criar a plataforma "Medicina Segura" é um passo importante, mas não suficiente. É crucial que haja maior investimento em tecnologias de fiscalização, educação pública e revisão de legislações para endurecer punições.

Para os pacientes, o alerta é claro: busque informações sobre os profissionais de saúde antes de realizar qualquer procedimento, especialmente os de natureza invasiva. A segurança na saúde depende tanto da regulamentação quanto da conscientização.

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