As transformações no cenário político da Bahia, impulsionadas pelas fusões partidárias e pela criação de federações nos últimos anos, têm redesenhado o arco de alianças dos principais candidatos ao Governo do Estado. De um lado, Jerônimo Rodrigues (PT) busca consolidar sua base governista e fortalecer sua tentativa de reeleição. Do outro, ACM Neto (União Brasil) aposta em um discurso de renovação e na ampliação de alianças para tentar quebrar a hegemonia petista que já dura duas décadas na Bahia.

O impacto das fusões e federações no cenário eleitoral
Desde a aplicação da nova legislação eleitoral em 2022, que permitiu a criação de federações partidárias e incentivou fusões entre siglas, o panorama político brasileiro tem passado por mudanças significativas. Esses arranjos, que unem partidos com afinidades ideológicas em uma coalizão de longo prazo, têm como objetivo aumentar a representatividade e a estabilidade política, mas também geraram disputas internas e reposicionamentos estratégicos.
Na Bahia, essas mudanças foram sentidas de forma intensa, com as federações desempenhando um papel central na reorganização dos apoios políticos tanto para Jerônimo Rodrigues quanto para ACM Neto. A "sopa de letrinhas" composta pelas coligações partidárias se tornou um indicador crucial da força política de cada candidato.

A base governista de Jerônimo Rodrigues
Jerônimo Rodrigues conseguiu preservar a maioria dos partidos que o apoiaram em 2022, ampliando sua base aliada de sete para nove siglas. Entre as novidades, destacam-se o PDT e o DC, que migraram para o campo governista após desavenças com o grupo de ACM Neto. Essa expansão reforça a estratégia do governador de consolidar sua liderança no interior do estado, onde o PSD e o Avante possuem forte presença.
O PSD, comandado pelo senador Otto Alencar, é o maior aliado de Jerônimo, com 115 prefeituras sob seu controle, representando quase 30% dos municípios baianos. Já o Avante, liderado por Ronaldo Carletto, também desempenha um papel crucial ao controlar 60 prefeituras e sete cadeiras na Assembleia Legislativa da Bahia (Alba).
O ingresso do PDT: uma mudança estratégica
O PDT, que anteriormente fazia parte do arco de alianças de ACM Neto, agora integra a base de Jerônimo Rodrigues. Segundo Félix Mendonça Júnior, presidente estadual do partido, a decisão foi motivada por pressões de prefeitos e lideranças locais, além de insatisfações com a gestão de alianças do grupo oposicionista.
Essa mudança fortaleceu a presença do PDT no interior, com lideranças regionais como Marcinho Oliveira e Pastor Tom trazendo apoio estratégico em áreas tradicionalmente disputadas. A meta do partido é eleger até seis deputados estaduais na Alba.
ACM Neto e a coalizão da oposição
ACM Neto, por sua vez, busca consolidar uma coalizão de direita capaz de desafiar o domínio petista na Bahia. Sua principal aposta está na Federação União Progressista, formada pelo União Brasil e Progressistas, além do fortalecimento de laços com o PL, Republicanos e outras siglas menores.
Apesar de perdas importantes, como a saída do PDT e do DC, Neto conseguiu ampliar sua base com novas alianças e nomes de peso, como o senador Angelo Coronel e o deputado Leo Prates, ambos recém-filiados ao Republicanos. Esses reforços são estratégicos, especialmente em Salvador, onde Prates foi o parlamentar mais votado em 2022.
A pacificação com João Roma e o papel do PL
Um dos movimentos mais significativos de ACM Neto foi a reaproximação com João Roma, presidente do PL na Bahia e ex-ministro do governo Bolsonaro. Após desavenças durante a campanha de 2022, os dois líderes firmaram uma aliança estratégica para atrair o eleitorado bolsonarista, que desempenhou um papel importante nas últimas eleições.
Embora Neto evite uma associação direta com o bolsonarismo, sua aliança com o PL é considerada crucial para equilibrar os votos entre lulistas, conservadores moderados e eleitores de direita.
A nacionalização do debate eleitoral
Assim como em 2022, a disputa pelo governo da Bahia em 2026 está profundamente atrelada ao cenário nacional. Jerônimo Rodrigues tenta capitalizar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que obteve mais de 72% dos votos no estado na última eleição presidencial. A presença de Lula na convenção de Jerônimo reflete essa estratégia de vincular as campanhas estadual e nacional.
Por outro lado, ACM Neto tenta evitar a polarização extrema ao se associar ao governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), enquanto mantém distância de figuras mais controversas, como Flávio Bolsonaro. Essa estratégia busca atrair votos de diferentes espectros políticos, mas também apresenta desafios, já que a imagem de Neto pode ser diluída entre eleitores de perfis opostos.
A visão do especialista
A análise do cenário político baiano para as eleições de 2026 revela um panorama de intensa disputa e reconfiguração de alianças. Enquanto Jerônimo Rodrigues aposta na consolidação de sua base aliada e na popularidade do presidente Lula para garantir sua reeleição, ACM Neto tenta expandir sua coalizão e atrair votos de diferentes segmentos do eleitorado.
Contudo, a dependência de Neto de alianças heterogêneas e de apoios de espectros políticos opostos pode representar sua maior fraqueza. A dificuldade em conciliar interesses tão diversos pode criar ruídos em sua campanha, enquanto Jerônimo se beneficia de uma base coesa e alinhada.
No entanto, ainda há muito em jogo. A força das chapas proporcionais, o desempenho nos debates e as estratégias de comunicação serão determinantes para o desfecho dessa disputa histórica pelo Palácio de Ondina.
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