A Atlas Renewable Energy, uma das maiores geradoras de energia do Brasil, defendeu recentemente a exigência de instalação de sistemas de baterias em novos parques solares como forma de mitigar cortes no fornecimento de energia. A proposta surge em meio a desafios enfrentados pelo setor de energias renováveis, especialmente no que diz respeito ao excesso de energia gerada em determinados períodos do dia, o que afeta diretamente a eficiência e a viabilidade econômica desse tipo de geração.
O problema do excesso de energia e os cortes no Brasil
O Brasil tem se destacado na produção de energia renovável, com forte crescimento dos setores solar e eólico. No entanto, o excesso de energia gerada em horários específicos, combinado com a falta de infraestrutura de armazenamento e distribuição, tem levado a cortes frequentes. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem sido obrigado a adotar medidas para evitar sobrecargas na rede, como o desligamento de usinas.
De acordo com o vice-presidente comercial da Atlas Renewable Energy, Luís Ballester, esses cortes resultaram em perdas substanciais para o setor. A própria Atlas reportou prejuízos de US$ 45 milhões em 2025, com uma média de 20% a 25% de sua capacidade de geração sendo cortada.
Exemplos globais: o caso mexicano
Para mitigar problemas semelhantes, o México implementou uma legislação em março de 2025 exigindo que todas as usinas solares e eólicas incluam sistemas de baterias equivalentes a pelo menos 30% de sua capacidade instalada, com uma autonomia mínima de descarga de três horas. A medida busca equilibrar a geração e o consumo de energia, reduzindo o desperdício e aumentando a estabilidade da rede elétrica.
Essa abordagem tem sido apontada como um modelo para o Brasil, que enfrenta desafios similares. Contudo, especialistas destacam que uma implementação eficaz demanda regulamentações claras e incentivos econômicos para viabilizar os investimentos necessários.
Sistemas BESS: Tecnologia e regulamentação
Os sistemas de armazenamento de energia, conhecidos como BESS (Battery Energy Storage Systems), são fundamentais para solucionar o problema do excedente de energia. No Brasil, entretanto, sua regulamentação permanece estagnada. Desde 2023, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) debate o tema, mas enfrenta atrasos devido a pedidos de vista de seus diretores.
Entre as principais questões em discussão estão a tributação e remuneração das empresas que operam esses sistemas. Há dúvidas sobre como classificar as baterias: seriam elas uma extensão das unidades de geração renovável ou um ativo separado que pode ser despachado diretamente pelo ONS?
Tributação e custos dos sistemas de baterias
Outro entrave à adoção de sistemas de armazenamento no Brasil é a elevada carga tributária. Atualmente, os tributos sobre baterias importadas chegam a 70% do preço original, dificultando o acesso a essa tecnologia. A maioria dos equipamentos é proveniente da China, líder global na fabricação de baterias.
Embora o Brasil possua uma indústria local de baterias, sua produção ainda é limitada e enfrenta dificuldades de competitividade. A redução dos impostos sobre importação e estímulos à indústria nacional são medidas defendidas por especialistas para aumentar a viabilidade econômica dos sistemas BESS.
Impactos econômicos dos cortes de energia
Os cortes de energia têm gerado prejuízos bilionários para o setor de renováveis no Brasil. Entre 2025 e 2026, estima-se que cerca de R$ 38,8 bilhões em investimentos foram suspensos devido à instabilidade na rede elétrica, especialmente em regiões como o norte de Minas Gerais e o Nordeste, onde se concentram a maioria das grandes usinas solares e eólicas.
Além disso, as empresas afetadas pelos cortes são obrigadas a comprar energia de outros geradores para honrar contratos com clientes, como grandes indústrias. Essa prática gera custos adicionais e pressiona ainda mais as margens de lucro do setor.
Movimentações em Brasília: Compensação pelos cortes
Em resposta à crise, o setor tem intensificado esforços para obter apoio do governo federal. Em novembro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei que prevê compensações financeiras para cortes de energia causados pela falta de infraestrutura de transmissão. Esses reembolsos, estimados em cerca de R$ 4 bilhões, excluem cortes relacionados ao excesso de geração.
No entanto, cinco meses após a aprovação da lei, o decreto que regulamenta as compensações ainda não foi publicado, gerando incertezas entre os investidores e operadores do setor.
Impactos no consumo e na sustentabilidade
Os cortes de energia não afetam apenas as empresas de geração renovável, mas também têm implicações para os consumidores e metas de sustentabilidade. Quando usinas solares e eólicas são desligadas, a energia substituta geralmente vem de fontes não renováveis, como termelétricas movidas a carvão ou gás natural, aumentando as emissões de carbono.
Além disso, os cortes podem levar a aumentos nos preços da energia para os consumidores, uma vez que as empresas repassam os custos adicionais de aquisição de energia de outras fontes.
A Visão do Especialista
Exigir a instalação de sistemas de baterias em novos parques solares pode representar um avanço significativo para o setor de renováveis no Brasil, tanto em termos de eficiência quanto de sustentabilidade. No entanto, para que essa medida seja bem-sucedida, é essencial que o governo federal implemente incentivos fiscais e regulamentos claros que garantam a viabilidade econômica desses sistemas.
Além disso, é imperativo que a Aneel acelere o processo de regulamentação dos sistemas BESS, que são uma peça-chave para o futuro energético do país. Sem essas medidas, o Brasil corre o risco de perder investimentos significativos e comprometer metas de redução de emissões.
O caminho para um setor de energias renováveis mais eficiente e sustentável passa pela adoção de tecnologias modernas e pela criação de um ambiente regulatório favorável. Compartilhe esta reportagem com seus amigos e contribua para ampliar o debate sobre o futuro energético do Brasil.
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