São Paulo tem se destacado como referência global no combate ao HIV, especialmente com a implementação de estratégias inovadoras para ampliar o acesso à profilaxia antirretroviral. Entre essas iniciativas, a capital paulista se tornou a única cidade no mundo a disponibilizar a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) e a PEP (Profilaxia Pós-Exposição) em máquinas automáticas localizadas em estações de metrô. Essa abordagem, que visa facilitar o acesso e reduzir o estigma associado ao HIV, já apresenta resultados promissores.

Cidade de São Paulo, Brasil, com uma multidão de pessoas em uma praça, com uma grande bandeira vermelha no centro, simbolizando a luta contra a aids.
Fonte: www.bbc.com | Reprodução

O que são PrEP e PEP?

A PrEP é uma medida preventiva que, quando usada regularmente ou sob demanda, pode reduzir em até 99% o risco de infecção pelo HIV. Já a PEP é um tratamento de 28 dias indicado para pessoas que tiveram uma exposição recente ao vírus, como em casos de relações sexuais desprotegidas ou acidentes com materiais cortantes contaminados.

Esses medicamentos, que fazem parte de um grupo de antirretrovirais, são ferramentas fundamentais na luta contra a epidemia de HIV. No entanto, seu uso eficaz depende de fatores como acesso, adesão ao tratamento e monitoramento médico periódico.

Cidade de São Paulo, Brasil, com uma multidão de pessoas em uma praça, com uma grande bandeira vermelha no centro, simbolizando a luta contra a aids.
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Como funcionam as máquinas de PrEP e PEP no metrô de São Paulo?

Desde junho de 2024, São Paulo conta com máquinas automáticas em cinco estações de metrô altamente movimentadas: Brás, Consolação, Luz, Santana e Vila Sônia. O objetivo é garantir que a profilaxia esteja acessível de forma rápida, prática e, acima de tudo, com maior privacidade para os usuários.

Para utilizar o serviço, os interessados devem seguir alguns passos:

  • Baixar o aplicativo e-saúdeSP.
  • Realizar um teste de HIV, disponível em laboratórios ou por meio de testes rápidos fornecidos pelo SUS.
  • Agendar uma consulta virtual para receber orientações de uso.
  • Obter um QR Code e apresentá-lo na máquina para retirar o medicamento.

Cada retirada permite acesso a até três frascos com 30 comprimidos, o suficiente para meses de uso. Além disso, o modelo garante que os dados do usuário fiquem registrados no SUS, assegurando a rastreabilidade do tratamento sem comprometer o anonimato.

Uma revolução no acesso e na prevenção

A ideia de distribuir a PrEP e a PEP em máquinas automáticas nasceu da percepção de que os sistemas de saúde precisam se adaptar à rotina das pessoas. Segundo Maria Cristina Abbate, coordenadora do Programa Municipal de IST/Aids de São Paulo, "os serviços de saúde precisam se colocar na rotina das pessoas, e não o contrário".

O modelo paulistano tem sido amplamente elogiado porque enfrenta um dos maiores desafios no combate ao HIV: o estigma social. A necessidade de buscar medicamentos em unidades de saúde muitas vezes expõe os usuários a olhares e julgamentos, o que desmotiva a adesão ao tratamento preventivo. Assim, as máquinas oferecem uma alternativa prática e discreta.

Impacto nos números de HIV em São Paulo

Desde a introdução da PrEP na rede pública em 2018 e, mais recentemente, com as máquinas automáticas, São Paulo tem registrado uma redução significativa no número de novos casos de HIV. Entre 2016 e 2026, a cidade observou uma queda de 53% nos novos diagnósticos. Jovens de 15 a 29 anos, que representam quase metade dos usuários das máquinas, apresentaram a maior redução nas taxas de infecção.

A iniciativa também contribuiu para o aumento na adesão ao tratamento: cerca de 85 mil pessoas na cidade já fizeram uso da PrEP, seja por meio das máquinas ou dos postos de saúde. Apenas as máquinas de metrô realizaram 15 mil dispensações desde sua implementação.

O reconhecimento internacional

A estratégia de São Paulo tem atraído a atenção de especialistas em saúde pública ao redor do mundo. Em julho de 2026, a iniciativa foi tema de debate na 26ª Conferência Internacional sobre Aids, realizada no Rio de Janeiro. O evento reuniu pesquisadores e formuladores de políticas públicas para discutir avanços no combate ao HIV, com São Paulo sendo destacada como um exemplo de inovação.

Além disso, veículos internacionais como o The Telegraph, do Reino Unido, destacaram o modelo como único no mundo. Embora outros países distribuam a PrEP gratuitamente, apenas em São Paulo o medicamento é acessível de maneira automatizada em um ambiente público como o metrô.

Os desafios e as críticas ao modelo

Embora o modelo seja amplamente elogiado, especialistas apontam limitações. Segundo o infectologista Ricardo Vasconcelos, o acesso automatizado não substitui o acompanhamento médico completo. "As máquinas devem ser celebradas, mas não podem funcionar sozinhas", ele alerta.

Ao retirar a PrEP em uma máquina, o usuário precisa apenas apresentar um teste negativo para HIV, mas deixa de realizar outros exames importantes, como os que monitoram a função renal ou identificam outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). Essa lacuna pode levar a diagnósticos tardios de condições como sífilis, cuja incidência tem aumentado globalmente.

Custos e expansão: um impasse nacional

Apesar dos resultados promissores, o modelo ainda enfrenta resistência em termos de expansão. Segundo o Ministério da Saúde, os custos de implementação e manutenção das máquinas — cerca de R$ 19,3 mil por mês cada — são considerados elevados para a sustentabilidade do SUS.

Por outro lado, especialistas argumentam que o investimento em prevenção pode gerar economia a longo prazo, reduzindo gastos com tratamentos para HIV e outras complicações associadas à doença. Atualmente, o Brasil possui uma proporção de 5,2 usuários de PrEP para cada novo diagnóstico de HIV, acima da referência internacional mínima de três.

A Visão do Especialista

O modelo de São Paulo é um marco na luta contra o HIV, demonstrando como soluções inovadoras podem superar barreiras de acesso e estigma. Contudo, sua eficácia a longo prazo depende de uma integração mais robusta entre o acesso automatizado e o acompanhamento médico tradicional.

Enquanto as máquinas democratizam o acesso, é fundamental que os usuários sejam incentivados a realizar exames regulares e a adotar outras medidas de proteção, como o uso de preservativos. Além disso, a expansão do modelo para outras cidades deve ser acompanhada de uma análise detalhada de custo-benefício, considerando não apenas os gastos diretos, mas também os impactos positivos na saúde pública.

Cidade de São Paulo, Brasil, com uma multidão de pessoas em uma praça, com uma grande bandeira vermelha no centro, simbolizando a luta contra a aids.
Fonte: www.bbc.com | Reprodução

São Paulo provou que é possível inovar no combate ao HIV, mas o desafio agora é ampliar essa abordagem sem comprometer a qualidade do cuidado. Compartilhe essa reportagem com seus amigos e ajude a disseminar informações sobre essa importante iniciativa de saúde pública.