O Ministério da Saúde do Brasil deu um importante passo ao propor à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) a inclusão do cabotegravir, um medicamento injetável capaz de prevenir a infecção pelo HIV. Desenvolvido pela farmacêutica GSK/ViiV Healthcare, o cabotegravir é administrado a cada dois meses e possui eficácia de quase 100% na prevenção do HIV, superando as alternativas existentes, como a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) oral diária. Essa medida poderá beneficiar milhares de brasileiros que enfrentam dificuldades de adesão ao tratamento atual.

Imagem de um jornalista segurando um frasco de medicamento, com uma legenda sobre o HIV e o SUS.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

O que é o cabotegravir injetável?

O cabotegravir, comercializado como Apretude, é um medicamento antirretroviral de longa duração que atua bloqueando os mecanismos de replicação do HIV no organismo. Diferentemente de uma vacina, que estimula o sistema imunológico a produzir anticorpos, o cabotegravir mantém o composto ativo presente no sistema circulatório, pronto para agir caso o indivíduo entre em contato com o vírus.

A principal vantagem do cabotegravir em comparação à PrEP oral diária é sua administração bimestral. Estudos clínicos demonstraram que a eficácia do cabotegravir é superior à da PrEP tradicional, em grande parte devido à maior adesão proporcionada pela menor frequência de administração.

Por que o cabotegravir é uma revolução na prevenção do HIV?

Desde 2017, o SUS oferece a PrEP oral como estratégia de prevenção ao HIV. Apesar de sua eficácia, a necessidade de tomar o medicamento diariamente é um desafio para muitas pessoas, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade social. O cabotegravir resolve esse problema ao exigir apenas seis aplicações anuais, tornando a adesão ao tratamento mais viável.

Além disso, segundo um estudo publicado na revista científica Value in Health, o uso do cabotegravir no Brasil pode evitar aproximadamente 385 mil infecções por HIV nos próximos 10 anos, o que geraria uma economia de R$ 14 bilhões nos custos de tratamento e cuidados com a saúde.

Como funciona o processo de aprovação pelo SUS?

O caminho para a inclusão de um medicamento no SUS passa por etapas rigorosas. No caso do cabotegravir, o Ministério da Saúde submeteu a proposta à Conitec, que é responsável por avaliar a segurança, eficácia e custo-efetividade do medicamento. Essa comissão terá a tarefa de analisar os dados científicos e emitir uma recomendação ao ministério.

Após a análise da Conitec, o Ministério da Saúde tomará a decisão final sobre a incorporação do cabotegravir ao sistema público de saúde. A proposta será analisada em agosto de 2026, e a expectativa é que, caso aprovada, o medicamento esteja disponível para a população brasileira nos próximos anos.

Outras opções de prevenção: lenacapavir

Embora a discussão sobre o cabotegravir esteja em destaque, outra opção de longa duração, o lenacapavir, também tem ganhado espaço no cenário global. Desenvolvido pelo laboratório Gilead Sciences, o lenacapavir é administrado semestralmente e tem eficácia semelhante à do cabotegravir.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já recomendou a inclusão do lenacapavir nas estratégias de prevenção ao HIV, destacando que ele é uma alternativa promissora enquanto uma vacina contra o vírus ainda não está disponível. No Brasil, o medicamento também foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Desafios econômicos e logísticos

Embora os benefícios do cabotegravir sejam inegáveis, os custos associados ao medicamento representam um desafio significativo. Atualmente, o preço do cabotegravir no mercado privado brasileiro é elevado, o que pode dificultar sua incorporação ao SUS. Além disso, será necessário estabelecer uma infraestrutura adequada para armazenar e administrar o medicamento em larga escala.

Especialistas alertam que uma política pública robusta será essencial para garantir o acesso ao cabotegravir, especialmente para populações mais vulneráveis, como trabalhadores do sexo, homens que fazem sexo com homens e pessoas em situações de maior risco de exposição ao HIV.

O impacto na saúde pública

A introdução do cabotegravir no SUS pode marcar um ponto de virada na luta contra o HIV no Brasil. Atualmente, o país registra cerca de 40 mil novos casos de infecção por HIV anualmente. Com a alta eficácia do cabotegravir e sua capacidade de melhorar a adesão ao tratamento, espera-se uma redução significativa nesses números.

Indicador PrEP Oral Cabotegravir
Frequência de Administração Diária Bimestral
Eficácia Alta Quase 100%
Adesão Média Alta

A Visão do Especialista

O cabotegravir representa um avanço significativo na prevenção do HIV, mas sua implementação no SUS exigirá esforços coordenados para superar desafios econômicos e logísticos. Além disso, é crucial que campanhas de conscientização sejam intensificadas para informar a população sobre essa nova ferramenta de prevenção.

Ao reduzir drasticamente as taxas de infecção, o cabotegravir pode não apenas salvar vidas, mas também aliviar a carga financeira do sistema de saúde pública no Brasil. No entanto, cabe ao governo, à Conitec e às empresas farmacêuticas encontrar um equilíbrio entre o custo e a acessibilidade, garantindo que o benefício chegue a quem mais precisa.

O combate ao HIV é uma batalha contínua, mas avanços como o cabotegravir oferecem uma nova esperança de controle eficaz da epidemia. A adoção desse medicamento no SUS pode colocar o Brasil na vanguarda global da saúde pública, mas será necessária uma implementação bem planejada e inclusiva.

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