A maioria das vítimas de feminicídio no Brasil nunca denunciou o agressor antes de ser morta. Dados da Plataforma Mulher Segura, do governo federal, revelam que apenas 30,8% das mulheres assassinadas registraram alguma queixa prévia contra o autor do crime. No Espírito Santo, a situação é semelhante: 70% das mulheres que morreram vítimas de feminicídio nunca haviam feito uma denúncia formal.
O silêncio das vítimas: por que elas não denunciam?
De acordo com Michelle Meira, titular da Gerência de Proteção à Mulher da Secretaria de Segurança Pública do Espírito Santo, muitos fatores emocionais dificultam que as mulheres rompam o silêncio. "Muitas vítimas não acreditam que o agressor vai chegar ao ponto de matá-las. O feminicídio é uma escalada de violência", explica.
O juiz Marco Aurélio Soares Pereira, da Vara de Violência Doméstica da Serra, acrescenta que a convivência com o agressor contribui para a normalização do comportamento abusivo. "A mulher muitas vezes acredita que aquele comportamento 'é o jeito' do companheiro ou que ele só é violento 'quando bebe', o que dificulta o reconhecimento do perigo iminente", pontua.
Compreender a violência: um obstáculo para muitas mulheres
O promotor de Justiça Lucas Lobato La Rocca destaca que muitas mulheres não conseguem identificar as diferentes formas de violência, além da física. "Existe violência psicológica, patrimonial, um xingamento. A palavra não desperta a mesma atenção que o tapa", explica. Essa falta de entendimento sobre o conceito de violência pode retardar a busca por ajuda e aumentar o risco de feminicídio.
Além disso, o medo do julgamento social também pesa na decisão de denunciar. "Muitas acreditam que vão se expor e carregar o estigma de que o relacionamento fracassou por culpa delas", complementa o promotor.
O papel das medidas protetivas e sua eficácia
Programas como o "Mulher Segura", que incluem ações como monitoramento eletrônico de agressores e delegacias especializadas, têm sido apontados como fundamentais. Contudo, especialistas alertam que "as medidas protetivas não são coletes à prova de bala", conforme destaca o juiz Marco Aurélio Soares Pereira. Ainda assim, ele reforça que essas iniciativas salvam vidas, desde que sejam usadas corretamente e combinadas com apoio psicológico e social.
Infraestrutura e desafios no atendimento às vítimas
A advogada criminalista Layla Freitas, presidente da Comissão da Mulher Advogada da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Espírito Santo (OAB-ES), aponta falhas na infraestrutura das Delegacias de Atendimento à Mulher (Deams). "A lei prevê atendimento 24 horas, mas isso não é seguido. Faltam recursos físicos e humanos", afirma.
Michelle Meira, por outro lado, defende que o Espírito Santo possui uma rede de apoio estruturada, incluindo 17 Salas Maria, espaços humanizados de acolhimento para mulheres vítimas de violência doméstica e seus filhos. No entanto, reconhece que há limitações. "Não há psicólogos e assistentes sociais presenciais em todas as unidades, pois não há demanda suficiente, e nem é uma atribuição direta da segurança pública", explica.
Dados alarmantes sobre feminicídio no Brasil
Os números de feminicídio no Brasil são alarmantes. Em 2025, 1.561 mulheres foram assassinadas no país, com uma média de idade de 36,8 anos. Quase 30% dos casos ocorreram entre mulheres de 25 a 34 anos, e 44,6% das vítimas eram pardas. Além disso, 28,4% dos crimes aconteceram na residência das vítimas, e 19,4% ocorreram aos domingos.
Panorama no Espírito Santo
| Indicador | Dados (2025) |
|---|---|
| Total de vítimas | 35 |
| Faixa etária mais afetada | 25 a 29 anos |
| Cor das vítimas | 51,43% pardas |
| Dia com mais ocorrências | Domingo (11 casos) |
| Arma mais utilizada | Arma branca (51,43%) |
Iniciativas e caminhos para a mudança
Apesar das dificuldades, há esforços para reverter essa realidade. O Espírito Santo, por exemplo, conta com a Central de Teleflagrantes, que funciona 24 horas, e realiza a busca ativa de vítimas por meio de serviços especializados nos municípios. Além disso, programas de conscientização estão sendo ampliados para informar as mulheres sobre seus direitos e os serviços disponíveis.
Especialistas defendem que uma maior integração entre os órgãos de segurança pública, assistência social e justiça é essencial para garantir um atendimento mais eficiente e humanizado. Também é necessário investir em campanhas de conscientização para desmistificar tabus e promover o conhecimento sobre o que configura violência doméstica.
A Visão do Especialista
O aumento da conscientização sobre o problema do feminicídio no Brasil é um passo crucial, mas ainda insuficiente. As estatísticas mostram que a maioria das vítimas não denuncia os abusos, o que revela como as barreiras sociais, econômicas e culturais ainda são grandes obstáculos para as mulheres em situação de violência.
Portanto, é fundamental que o Estado intensifique os investimentos em políticas públicas voltadas para a proteção e o acolhimento das vítimas. Isso inclui o fortalecimento das Delegacias de Atendimento à Mulher, especialmente com a ampliação de um atendimento humanizado e efetivo, além de uma rede de apoio que inclua psicólogos e assistentes sociais em maior número.
No entanto, a sociedade também tem um papel crucial nesse processo. É preciso fomentar uma cultura de denúncia e acolhimento, onde as vítimas se sintam seguras para buscar ajuda sem medo de julgamento ou represálias. Compartilhar informações e educar sobre o tema pode salvar vidas e ajudar a reverter esse preocupante cenário.
Se você ou alguém que você conhece está em uma situação de violência, denuncie. Em casos de emergência, ligue 190. Para denúncias anônimas, utilize o Disque 100 ou o Disque Denúncia pelo 181.
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