O livro de memórias "Living the Asian Century: An Undiplomatic Memoir", lançado em 2024 pelo diplomata e acadêmico Kishore Mahbubani, oferece uma rara visão sobre os bastidores das relações internacionais e da trajetória de um dos mais renomados nomes da diplomacia global. Com uma narrativa transparente e por vezes surpreendentemente franca, a obra se destaca por quebrar os paradigmas tradicionais do que se espera de um relato autobiográfico de um diplomata.

Políticos sentados em uma mesa, com expressões tensas e discussões acaloradas.
Fonte: www.em.com.br | Reprodução

O contexto histórico: a ascensão de Singapura e de Mahbubani

Kishore Mahbubani nasceu em 1948, em uma Singapura ainda sob domínio britânico. Seus pais, hindus de origem sindhi, emigraram para o pequeno território em busca de melhores condições de vida, mas enfrentaram pobreza extrema e desafios familiares, incluindo o alcoolismo do pai. Em paralelo, Singapura enfrentava suas próprias dificuldades: após a separação da Malásia, em 1965, o país, pobre e sem recursos naturais, transformou-se em uma das economias mais prósperas do mundo, sob a liderança de Lee Kuan Yew.

Mahbubani, por sua vez, trilharia um caminho de superação que espelhou o crescimento de sua nação. Com acesso a bibliotecas públicas e guiado por uma determinação inabalável, ele consolidou uma carreira diplomática e acadêmica que o posicionaria como um dos principais analistas das relações internacionais contemporâneas.

Carreira diplomática e acadêmica: um legado global

Mahbubani destacou-se como diplomata em várias frentes. Foi embaixador de Singapura nas Nações Unidas por duas vezes, incluindo o período em que o país ocupou uma cadeira não-permanente no Conselho de Segurança. Durante esse tempo, presidiu o Conselho e liderou iniciativas que, embora inovadoras, desafiaram normas estabelecidas, gerando atritos com membros permanentes como a França.

Além de sua atuação diplomática, Mahbubani foi o primeiro reitor da Lee Kuan Yew School of Public Policy, consolidando o prestígio internacional da instituição como um centro de excelência em políticas públicas. Ele também se destacou como autor e palestrante, abordando temas como a ascensão da Ásia, o papel da ASEAN e a rivalidade entre China e Estados Unidos.

O livro de memórias: um olhar sem filtros

Em "Living the Asian Century", Mahbubani vai além da narrativa tradicional de conquistas e triunfos. Ele escreve com uma sinceridade rara sobre suas dificuldades pessoais, como a separação de seus pais, e desafios profissionais, incluindo momentos de dúvida e frustração ao longo de sua carreira. O jornal The Straits Times, de Singapura, destacou a honestidade incomum do autor, especialmente em um contexto cultural que valoriza a discrição.

Uma visão crítica da diplomacia

O subtítulo do livro, "An Undiplomatic Memoir", reflete o tom direto e crítico de Mahbubani. Ele não hesita em apontar as contradições do sistema internacional, como a tendência das grandes potências de priorizarem seus próprios interesses em detrimento de princípios universais. Em um trecho marcante, ele reflete sobre as limitações dos membros não-permanentes do Conselho de Segurança da ONU, comparando-os a "turistas que tentam rearranjar os móveis da casa de outros".

Perspectivas sobre a rivalidade global

O autor também analisa a crescente rivalidade entre China e Estados Unidos, um tema que permeia grande parte de sua obra. Em uma de suas palestras, intitulada "Quando os elefantes brigarem, será a ASEAN pisoteada", ele destacou os riscos que as disputas entre as potências representam para os países menores do Sudeste Asiático.

Repercussão e impacto no cenário global

O lançamento de "Living the Asian Century" causou grande repercussão no cenário internacional. O livro foi recebido como uma obra essencial para compreender as transformações geopolíticas contemporâneas, especialmente no contexto da ascensão asiática. Além disso, a abordagem franca de Mahbubani sobre a diplomacia e as relações internacionais gerou debates acalorados entre especialistas e acadêmicos.

Em Singapura, a obra também foi vista como uma reflexão sobre a evolução do país e os desafios enfrentados para alcançar o status de uma das economias mais avançadas do mundo. A figura de Lee Kuan Yew, mentor de Mahbubani, é recorrente no livro, reforçando a ligação entre a trajetória do autor e a história de sua nação.

A relação com o Brasil e a relevância global

Ainda que Mahbubani tenha se concentrado em temas asiáticos, sua obra possui implicações globais, incluindo para o Brasil. A análise do papel das grandes potências e das instituições internacionais é especialmente relevante para os países em desenvolvimento, que frequentemente enfrentam desafios semelhantes aos descritos pelo autor em suas memórias.

No Brasil, apenas um de seus livros foi traduzido até o momento: "A China venceu? O desafio chinês à supremacia americana". A obra examina de perto as dinâmicas entre Estados Unidos e China, oferecendo insights valiosos para uma potência emergente como o Brasil, que busca se posicionar em um cenário internacional em rápida transformação.

Reflexões sobre o futuro da diplomacia

Mahbubani conclui suas memórias com uma mensagem de otimismo sobre o futuro da Ásia. Ele acredita que o continente está destinado a liderar a próxima era global, com milhões, senão bilhões, de asiáticos seguindo o exemplo de sua própria trajetória de superação. Para ele, o "século asiático" não é apenas uma previsão, mas uma realidade em construção.

A Visão do Especialista

Kishore Mahbubani não é apenas um contador de histórias; ele é um arquiteto de ideias que desafiam o status quo em um dos campos mais conservadores: a diplomacia. Sua obra, "Living the Asian Century: An Undiplomatic Memoir", transcende o gênero de memórias e se torna um manifesto sobre o futuro das relações internacionais.

Para o leitor brasileiro, seu trabalho oferece uma oportunidade crucial de reflexão sobre o papel do Brasil no cenário global e as lições que podem ser aprendidas com a ascensão asiática. À medida que o mundo se torna cada vez mais multipolar, a experiência de Mahbubani serve como um guia para navegar as complexidades de um sistema internacional em constante mudança.

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