Em 2025, o Brasil registrou 806 mil acidentes de trabalho e 3.644 mortes relacionadas à atividade laboral, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Esses números representam um crescimento de 65,8% nos acidentes e de 60,8% nos óbitos em relação a 2020, ano marcado pela retração econômica decorrente da pandemia de Covid-19. Especialistas apontam que a prevenção é a principal ferramenta para frear esses índices alarmantes, que alcançaram o maior patamar da série histórica no país.

O impacto dos acidentes no mercado de trabalho
Entre 2016 e 2025, os acidentes de trabalho resultaram na perda de mais de 106 milhões de dias de trabalho, evidenciando os prejuízos econômicos e sociais decorrentes da falta de prevenção. Apesar do aumento expressivo no número absoluto de casos, a taxa de incidência caiu de 29,39 para 17,94 por 100 mil trabalhadores, uma queda atribuída à ampliação do emprego formal. Contudo, os números ainda são preocupantes e colocam o Brasil entre os países com mais registros de acidentes laborais no mundo.
Setores mais afetados e os fatores de risco

O setor de saúde lidera em volume de ocorrências, com 633 mil registros na última década, concentrando-se especialmente em ambientes hospitalares e de pronto-socorro. Técnicos de enfermagem figuram como a ocupação com maior número de acidentes. Já o setor de transporte rodoviário de cargas apresenta os índices mais elevados de letalidade, com 4.249 mortes de motoristas de caminhão no período analisado, uma média superior a uma morte por dia.
Análise regional dos acidentes
São Paulo lidera em número absoluto de acidentes e mortes, concentrando mais de um terço do total no país. No entanto, os estados de Mato Grosso, Tocantins e Maranhão apresentam as maiores taxas de letalidade, destacando a necessidade de políticas regionais específicas para mitigar os riscos.
Os desafios na cultura de prevenção
Segundo Paulo Renato Fernandes da Silva, professor de direito do trabalho da FGV Direito Rio, os altos índices decorrem de fatores estruturais, como a falta de cultura de prevenção e o descaso com a legislação de proteção. "A responsabilidade pelo cumprimento das normas é das empresas, mas também é dever do trabalhador observar essas regras", afirma o especialista.
Programa de Gerenciamento de Riscos: um aliado fundamental
O Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), previsto nas normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho, é apontado como uma das principais ferramentas para reduzir acidentes de trabalho. A advogada e especialista em direito trabalhista, Fernanda Garcez, explica que o PGR exige uma análise detalhada das condições de trabalho para identificar, avaliar e controlar os riscos ocupacionais. "Em uma indústria, por exemplo, é necessário avaliar as máquinas e estabelecer medidas específicas para reduzir os índices de acidentes", diz Garcez.
Novas regulamentações e riscos psicossociais
Com as recentes alterações na Norma Regulamentadora 1 (NR-1), o PGR agora também inclui a avaliação de riscos psicossociais, como estresse e assédio moral, que também afetam a saúde e a segurança dos trabalhadores. Essa ampliação do escopo de avaliação é vista como um avanço na proteção do ambiente de trabalho.
A fiscalização como pilar de prevenção
Especialistas apontam que o aumento da fiscalização por parte do poder público é essencial para garantir que as empresas cumpram as normas de segurança e saúde no trabalho. A ausência de controles efetivos e a falta de atuação de sindicatos também são apontadas como fatores que contribuem para os elevados índices de acidentes.
Impactos de gênero e desigualdades no mercado
Outro aspecto relevante é o aumento de registros de acidentes envolvendo mulheres, que cresceram 48% ao longo da última década. No mercado de trabalho formal, o número de mulheres empregadas passou de 7,2 milhões para 8 milhões, mas a desigualdade salarial persiste. As mulheres ainda recebem, em média, 21,3% menos que os homens no setor privado, segundo o 5º Relatório de Transparência Salarial do MTE.
Desafios para mulheres em setores de risco
A presença crescente de mulheres em setores como saúde e serviços, que apresentam altos índices de acidentes, também exige maior atenção em termos de políticas de segurança e igualdade. O recorte racial do estudo mostra que mulheres negras tiveram um aumento expressivo de 29% em sua participação no mercado, mas ainda enfrentam desafios significativos relacionados à equidade salarial e condições de trabalho.
A importância da conscientização e treinamento
Campanhas de conscientização e treinamento são ferramentas indispensáveis na luta contra os acidentes de trabalho. Programas educativos voltados tanto para empregadores quanto para trabalhadores podem ajudar a disseminar uma cultura de segurança, reduzindo os riscos e promovendo ambientes laborais mais saudáveis.
A Visão do Especialista
Os números alarmantes de acidentes de trabalho no Brasil reforçam a necessidade urgente de uma mudança de postura por parte de empresas, trabalhadores e do poder público. É imprescindível que as empresas implementem programas eficazes de gerenciamento de riscos e que o governo intensifique a fiscalização para garantir o cumprimento das normas de segurança.
Além disso, a inclusão de riscos psicossociais no escopo das regulamentações é um passo importante, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido para que o ambiente de trabalho seja verdadeiramente seguro e saudável para todos. A combinação entre uma fiscalização mais rigorosa, maior investimento das empresas em prevenção e um esforço coletivo para fomentar uma cultura de segurança pode ser o caminho para reverter esses índices alarmantes.

Os números são um alerta: a prevenção é, de fato, a chave para frear os acidentes de trabalho e salvar vidas. Compartilhe essa reportagem com seus amigos e ajude a promover a conscientização sobre a importância da segurança no ambiente laboral.
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