O STF está julgando os "penduricalhos" enquanto magistrados defendem que são bônus por produtividade. No plenário de 25 de março, entidades que recebem as verbas indenizatórias usaram o argumento de alta eficiência para justificar os valores.

Produtividade x assessores: comparação entre juízes brasileiros e de outros países.
Fonte: redir.folha.com.br | Reprodução

Essas indenizações surgiram na década de 1990 como forma de compensar a carga de trabalho. O termo "penduricalho" passou a designar o adicional salarial que supera o teto constitucional de R$ 46,3 mil.

O ministro Dias Toffoli reforçou que a magistratura brasileira julga mais processos que qualquer outro país. São cerca de 80 milhões de demandas ao ano, com 32 milhões concluídas.

O que dizem os especialistas sobre a suposta produtividade?

Elias Canal, doutorando da UNB, aponta que a maioria das decisões vem de assessores. Eles elaboram minutas que o juiz apenas revisa, transformando o magistrado em gestor de equipe.

Dados do CNJ revelam 19 mil magistrados e 282,8 mil servidores no Judiciário. A proporção supera em muito a de outros sistemas judiciais.

  • Magistrados: 19 000
  • Servidores de apoio: 282 800
  • Relação magistrado/servidor: 1 para 15

Um estudo do IDP (2024) mostrou que o Brasil tem cinco vezes mais pessoal de apoio que a média europeia. A Cepej destaca esse desequilíbrio como exceção global.

Sérgio Guedes Reis afirma que juízes podem contar com até 20 assessores nos tribunais superiores, e mais de 50 no STF. Esse número não tem paralelo em democracias consolidadas.

Como a estrutura de apoio afeta o julgamento?

José Gozze, da Associação Nacional dos Servidores, descreve que o trabalho de despacho é quase todo preparado pelos assessores. O magistrado assina apenas a sentença final.

Marcelo Nunes, da Associação de Jurimetria, ressalta que 80 % dos processos são repetitivos e padronizados. Os assessores classificam e aplicam decisões pré‑definidas, deixando ao juiz apenas casos excepcionais.

  • Execução fiscal: 40 % (≈ 32 milhões)
  • Direito civil/consumo: 26 % (≈ 21 milhões)
  • Previdenciário: 14 %
  • Trabalhista: 9 %
  • Penal: 7 %
  • Outros: 4‑10 %

A alta litigiosidade, não a eficiência, impulsiona o volume de processos. A repetição de demandas reduz a necessidade de análise profunda.

Guedes Reis alerta que produtividade sem qualidade pode comprometer a legitimidade da justiça. Rapidez não substitui imparcialidade nem confiança cidadã.

Qual o caminho para uma justiça mais legítima?

Usar a produtividade como justificativa para "penduricalhos" equivale a pagar por buracos tapados, não por segurança nas estradas. O debate deve focar em critérios de equidade e transparência.

Reformas que reduzam a dependência de assessores e priorizem a decisão judicial autêntica podem restaurar a credibilidade do Judiciário. A sociedade precisa de um sistema que valorize o julgamento real, não a quantidade de minutas.

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