Sem acesso à defesa, a Justiça perde sua essência e se transforma em privilégio. A reforma do Judiciário brasileiro avança, mas a ausência da Defensoria Pública da União (DPU) em grande parte do território federal coloca em risco a efetividade do direito de defesa, ponto central da discussão que segue.

Pessoas esperando em uma sala de audiência judicial lotada, com um fundo de papeladas e cadeiras.
Fonte: www.correiobraziliense.com.br | Reprodução

Contexto histórico da Defensoria Pública da União

A DPU só ganhou autonomia plena em 2014, décadas após a Constituição de 1988 que já a previa. Sua criação tardia e o ritmo de expansão desigual são reflexos de decisões orçamentárias e de prioridades políticas que deixaram regiões inteiras sem representação jurídica.

O que a Emenda Constitucional nº 80 (2014) estabeleceu?

Pessoas esperando em uma sala de audiência judicial lotada, com um fundo de papeladas e cadeiras.
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A emenda determinou a presença da Defensoria em todas as localidades com Justiça Federal até 2022. O prazo expirou, mas a obrigação constitucional permanece, evidenciando um déficit institucional ainda não sanado.

Diagnóstico atual: cobertura da DPU no Brasil

AnoSubseções Judiciais FederaisCom DPUSem DPU% Cobertura
20222367116530%
20242367815833%
20262368415236%

Mesmo após oito anos da emenda, mais de 60% das subseções ainda carecem de defensoria. Esse número revela a persistência da assimetria institucional.

Impactos no acesso à justiça

Sem a DPU, cidadãos são obrigados a enfrentar processos complexos sem orientação adequada. O risco de decisões desfavoráveis aumenta, comprometendo a confiança no sistema judicial.

Repercussão econômica e social

O déficit de defesa pública eleva custos indiretos ao Estado, como recursos repetidos e demandas judiciais ineficazes. Estudos apontam que a falta de assistência jurídica pode gerar perdas de até 12% do PIB em regiões menos assistidas.

Visão dos especialistas

Especialistas em direito constitucional alertam que a reforma não será plena enquanto o acesso permanecer desigual. O professor Carlos Alberto de Oliveira (USP) destaca que "eficiência sem inclusão gera justiça de segunda classe".

Os 15 eixos propostos por Flávio Dino

  • Transparência nos processos judiciais;
  • Modernização tecnológica;
  • Governança participativa;
  • Ampliação da Defensoria Pública;
  • Revisão de metas de produtividade.

Entre os eixos, a ampliação da DPU é a única medida que garante a efetividade dos demais. Sem ela, os demais avanços carecem de base popular.

O caso da indicação de Tarcijany Linhares

A nomeação de uma defensora pública nordestina simboliza a tentativa de aproximar a DPU do povo. Contudo, a presença simbólica precisa ser acompanhada de recursos concretos para expandir a rede.

ADI 7792: a disputa no STF

A Ação Direta de Inconstitucionalidade questiona o descumprimento da Emenda 80. A Anadef argumenta que a ausência de defensores viola o princípio da igualdade material previsto na Constituição.

Comparativo internacional

Países como Chile e Portugal garantem defensoria pública em 100% das jurisdições. Essa prática assegura que a justiça seja acessível independentemente da renda ou localização.

Desafios para a reforma

O principal obstáculo é a alocação orçamentária em meio ao teto de gastos. A DPU, ainda em fase de consolidação, compete por recursos com órgãos já estruturados.

A Visão do Especialista

Para que a reforma do Judiciário seja genuinamente democrática, a Defensoria Pública da União deve ser prioridade estratégica. A integração da DPU nas 165 subseções faltantes é o passo decisivo para transformar eficiência em justiça real. Sem esse avanço, a reforma permanecerá incompleta, beneficiando apenas quem já tem acesso ao sistema.

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