O ministro André Mendonça alertou que a nova regra do STF para responsabilizar big techs pode criar um efeito inibidor na livre manifestação da sociedade. Em julgamento realizado em 11 de junho de 2026, o magistrado questionou a ampliação do artigo 21 do Marco Civil da Internet, apontando riscos para a liberdade de expressão nas redes sociais.

Contexto histórico do Marco Civil da Internet

Desde 2014, o Marco Civil da Internet (Lei 12.965) estabelece princípios de neutralidade, privacidade e responsabilidade dos provedores. Originalmente, o artigo 21 tratava apenas da divulgação não autorizada de imagens íntimas, mas sua interpretação evoluiu ao longo dos anos, acompanhando o crescimento exponencial das plataformas digitais.

A tese do STF de 2025 e sua repercussão

A Corte aprovou, em 2025, uma tese que amplia a responsabilidade civil das plataformas por conteúdo gerado por usuários. Essa decisão introduziu um prazo de transição de 60 dias para que as empresas se adequem, gerando debates intensos entre juristas, legisladores e o setor tecnológico.

O julgamento de 11 de junho de 2026

Mendonça afirmou que, "na situação atual, estamos gerando um efeito inibidor", pois as plataformas tendem a excluir conteúdos diante de dúvidas. O ministro destacou que a avaliação da tipicidade de uma publicação nem sempre é simples, e que delegar essa decisão ao setor privado pode comprometer o devido processo legal.

Ampliação do artigo 21 e o dever solidário

A ampliação do artigo 21 inclui agora o dever solidário das plataformas, exigindo que elas removam conteúdos potencialmente ilícitos antes de decisão judicial. Essa mudança transforma o modelo de responsabilidade, transferindo ao provedor a prerrogativa de juízo prévio que antes cabia ao Poder Judiciário.

Impacto na liberdade de expressão

Especialistas em direitos digitais alertam que a autocensura pode se intensificar, reduzindo o fluxo de informações e opiniões legítimas. O risco de remoções precipitadas pode criar um clima de medo entre usuários, limitando debates críticos e manifestações políticas.

Visão de Flávio Dino sobre juízo prévio

O ministro Flávio Dino contrapôs, argumentando que juízos prévios são comuns em atividades econômicas, como aluguel de imóveis ou de lojas em shoppings. Segundo Dino, a diferença reside na esfera pública da internet, onde a decisão impacta diretamente a circulação de ideias.

Reação das plataformas digitais

Facebook, X (Twitter) e TikTok já anunciaram ajustes em seus algoritmos de moderação para cumprir o prazo de 60 dias. Essas mudanças incluem a implementação de filtros automatizados mais agressivos, que podem gerar bloqueios indevidos de conteúdo.

Dados comparativos da evolução normativa

DataEventoImpacto
2014Promulgação do Marco Civil da InternetEstabeleceu princípios de neutralidade e privacidade
2025Tese do STF sobre responsabilidade civilAmpliação do dever das plataformas
11/06/2026Julgamento de MendonçaAlerta de efeito inibidor
Prazo de transição60 diasAdaptação obrigatória das big techs

Repercussão no mercado brasileiro

Analistas apontam que a nova responsabilidade pode elevar custos operacionais das plataformas, refletindo em investimentos em compliance. Pequenas startups de mídia social podem enfrentar barreiras de entrada maiores, concentrando ainda mais o mercado nas gigantes já estabelecidas.

Opiniões de especialistas e ONGs

Organizações como a Electronic Frontier Foundation (EFF) Brasil e o Instituto Brasileiro de Direito Digital (IBDD) denunciam a medida como "excessivamente restritiva". Elas defendem que a solução deve combinar transparência, mecanismos de recurso eficazes e salvaguardas judiciais.

Comparação internacional

Na União Europeia, o Digital Services Act (DSA) impõe obrigações de remoção, mas prevê auditorias independentes e relatórios de transparência. Nos EUA, o Section 230 ainda protege as plataformas de responsabilidade por conteúdo de terceiros, criando um contraste marcante com a proposta brasileira.

Possíveis cenários futuros

Se o STF mantiver a tese, o Congresso pode ser pressionado a criar lei complementar que ajuste os limites da responsabilidade. Alternativamente, um novo recurso pode levar à revisão da decisão, equilibrando segurança jurídica e liberdade de expressão.

A Visão do Especialista

Do ponto de vista jurídico, a tendência é que o Poder Judiciário recupere o protagonismo na avaliação de crimes digitais, evitando a delegação total a entes privados. Para os usuários, a chave será exigir mecanismos de contestação ágeis e transparentes, garantindo que a censura preventiva não se torne a norma.

Compartilhe essa reportagem com seus amigos.