O Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT) iniciou uma investigação rigorosa sobre a obra de pavimentação da MT-170, uma rodovia estratégica que interliga seis municípios no extremo noroeste do estado. Avaliada em R$ 675 milhões e entregue há apenas um ano, a via já apresenta sérios problemas estruturais, com o asfalto literalmente se desmanchando, segundo relatos das autoridades locais e moradores.

O contexto histórico do caso: de promessa a frustração
A MT-170, anteriormente conhecida como BR-170, foi estadualizada em 2022 com a promessa de impulsionar o desenvolvimento regional. A obra fazia parte de um pacote de infraestrutura anunciado pelo governo do estado, com o objetivo de melhorar a conectividade entre localidades como Aripuanã, Castanheira, Cotriguaçu, Colniza, Juína e Juruena.
A rodovia, que inclui 271 km de pavimentação e 22 pontes de concreto, foi celebrada como solução para os problemas logísticos que há décadas afligem a região. Destacou-se a construção da ponte sobre o Rio Juruena, a maior do estado, ao custo de R$ 269,6 milhões, fundamental para conectar Cotriguaçu a Nova Bandeirantes. A obra prometia reduzir o tempo de viagem de 10 horas para 2h30.
Falhas no projeto e materiais inadequados
Durante uma fiscalização realizada em abril de 2026, técnicos do TCE identificaram falhas graves na execução da obra. A pavimentação apresentou deterioração generalizada, com trechos inteiros da rodovia esfarelando. O presidente do TCE-MT, Sérgio Ricardo, declarou que o problema não se limitava a buracos isolados, mas sim ao colapso estrutural do asfalto.
A auditoria aberta pelo TCE busca esclarecer diversos pontos: o montante efetivamente investido na obra, os custos necessários para remover o material comprometido e o valor estimado para a reconstrução. Além disso, serão apuradas as responsabilidades das construtoras envolvidas — MT-Sul, Guaxe, Cavalca, Agrimat e Consol —, uma vez que a legislação exige garantia mínima de cinco anos para obras públicas.
Impactos na vida da população local
Para as comunidades da região, o fiasco da MT-170 representa mais do que um desperdício financeiro. A má condição da rodovia tem impactado diretamente a segurança, a saúde e a economia local. Segundo o vereador Fich Vaz, de Cotriguaçu, o transporte de produtos tem ficado mais caro e perigoso, enquanto as ambulâncias enfrentam dificuldades para chegar aos hospitais em Juína, que serve como polo de atendimento médico.
O vereador Vanilton de Paula Silva também destacou o sofrimento dos pacientes transportados em condições precárias pela estrada deteriorada, reforçando a urgência de uma solução definitiva para o problema.
O papel das autoridades e a reação política
A decisão do TCE de investigar a fundo as irregularidades na MT-170 gerou desconforto no governo estadual. O presidente Sérgio Ricardo recebeu críticas veladas de integrantes do Palácio Paiaguás, enquanto uma comissão formada por políticos de destaque, incluindo o senador Wellington Fagundes (PL) e a deputada Janaina Riva (MDB), buscou explicações sobre a situação.
O caso também trouxe à tona antigas controvérsias na execução de obras públicas no estado. A ex-secretária adjunta de obras rodoviárias da Secretaria de Estado de Infraestrutura (Sinfra), Nívia Calzolari, revelou que já havia identificado falhas no projeto durante a construção. Segundo ela, relatórios técnicos apontaram problemas nos materiais e no dimensionamento da obra, mas suas advertências teriam sido ignoradas.
Legislação e consequências legais
De acordo com o Código Civil, as empresas responsáveis por obras públicas devem oferecer garantia mínima de cinco anos para os serviços prestados. No caso da MT-170, foi revelado que o seguro da empresa MT-Sul, uma das envolvidas, estava vencido, impossibilitando a cobertura para reparos imediatos.
O TCE-MT já sinalizou que as construtoras poderão ser responsabilizadas pelos prejuízos. "Essa estrada não tem como ser recuperada. O asfalto esfarelou. Será necessário retirar todo o material e refazer a obra", afirmou Sérgio Ricardo.
Impactos econômicos e sociais
A deterioração da MT-170 afeta diretamente o escoamento da produção agrícola e mineral, setores essenciais para a economia local. Além disso, o custo logístico elevado reflete no aumento do preço dos produtos para os moradores da região, agravando a desigualdade econômica.
No âmbito social, as condições precárias da rodovia têm comprometido o acesso a serviços básicos, como saúde e educação. O transporte de pacientes em ambulâncias pelas vias deterioradas representa um risco constante à vida, enquanto estudantes enfrentam dificuldades para chegar às escolas em segurança.
A Visão do Especialista
O caso da MT-170 é um retrato preocupante da má gestão e supervisão de obras públicas no Brasil. A ausência de um controle rigoroso durante a execução, aliada à possível negligência no uso de materiais adequados, gerou um prejuízo significativo aos cofres públicos e à população.
Especialistas defendem a necessidade de reformas estruturais no processo de contratação e fiscalização de obras públicas. Além disso, a implementação de tecnologias mais avançadas, como pavimentação de alta resistência, poderia evitar problemas similares em rodovias de tráfego intenso.
No curto prazo, será essencial que o TCE-MT conclua sua auditoria com rigor e que as empresas envolvidas sejam responsabilizadas. No entanto, a longo prazo, o caso da MT-170 deve servir como um alerta para gestores públicos em todo o país: a falta de planejamento e responsabilidade na execução de obras pode ter consequências devastadoras para a sociedade.
Compartilhe essa reportagem com seus amigos e ajude a ampliar o debate sobre a qualidade das obras públicas no Brasil.
Discussão