Em 2023, a Netflix lançou "Treta" ("Beef", no original), uma minissérie que rapidamente se tornou um fenômeno cultural. Com um enredo que explora uma briga de trânsito transformada em uma obsessão destrutiva, a produção, estrelada por Steven Yeun e Ali Wong, conquistou o coração da crítica e do público. Mas agora, em 2026, a série retorna com uma nova proposta, assumindo um formato de antologia que evoca o mesmo tom ácido e satírico de "The White Lotus", porém, segundo críticos, sem o foco que consagrou sua temporada de estreia. O retorno levanta questões sobre a capacidade de sustainabilidade criativa em narrativas de sucesso.

Mulher deitada em uma praia luxuosa, sem foco, com um sorriso enigmático.
Fonte: valor.globo.com | Reprodução

Um fenômeno de representatividade

Quando "Treta" foi lançada, destacou-se por apresentar um elenco predominantemente asiático, rompendo com os estereótipos frequentemente associados a personagens desse grupo em produções ocidentais. A série abordou temas universais, como raiva, ressentimento e a pressão social, mas inseridos no contexto de uma comunidade asiático-americana, algo raramente explorado com tanta profundidade. A produção venceu três prêmios Emmy e três Globos de Ouro, solidificando-se como um marco não só pela qualidade narrativa, mas também pela importância cultural.

O formato de antologia: inspiração em "The White Lotus"

Agora, em sua nova fase, "Treta" adota o formato de antologia, no qual cada temporada aborda uma trama independente com novos personagens e cenários. Essa mudança remete imediatamente ao sucesso de "The White Lotus", uma sátira social que explora as tensões de classe e privilégios em resorts de luxo. Assim como a produção de Mike White, a nova fase de "Treta" busca explorar dinâmicas interpessoais complexas em um cenário contido, porém carregado de conflitos.

Uma mudança arriscada

Embora o formato de antologia tenha rendido frutos para outras séries, como "American Horror Story" e "True Detective", a transição nem sempre é garantida. Especialistas apontam que o sucesso da primeira temporada de "Treta" estava intrinsecamente ligado à química entre Steven Yeun e Ali Wong, bem como ao foco narrativo em um evento central que escalava de forma brilhante. A ausência desses elementos pode comprometer a identificação do público com a nova temporada.

O impacto no mercado e na audiência

O retorno de "Treta" acontece em um momento crucial para a Netflix, que enfrenta forte concorrência no mercado de streaming e precisa apostar em conteúdos que atraiam assinantes. Segundo dados da consultoria Ampere Analysis, cerca de 37% dos assinantes globais da Netflix consideram a disponibilidade de séries exclusivas um fator decisivo para manter suas assinaturas. Nesse contexto, o sucesso do novo formato pode influenciar diretamente a estratégia da plataforma.

Concorrência acirrada no streaming

Produções como "The White Lotus" e "Succession" da HBO, bem como "The Bear" do Hulu, têm elevado o nível de séries dramáticas com toques de comédia e crítica social. A Netflix, por sua vez, ainda luta para equilibrar quantidade e qualidade em seu catálogo. "Treta" poderia preencher essa lacuna, mas a falta de foco narrativo apontada por algumas críticas iniciais pode dificultar sua consolidação.

Repercussão da nova temporada

Apesar das expectativas, a segunda temporada de "Treta" foi recebida com reações mistas. Enquanto alguns elogiam a ousadia de explorar novas narrativas e expandir o universo da série, outros criticam a falta de coerência temática. O crítico de TV americano Alan Sepinwall observou que "o tom ácido permanece intacto, mas o enredo disperso enfraquece o impacto emocional". Essa avaliação reflete o desafio de manter o mesmo nível de engajamento sem os personagens originais.

O papel do elenco estelar

A nova temporada conta com Carey Mulligan e Oscar Isaac nos papéis principais, dois nomes de peso que trazem credibilidade à produção. No entanto, mesmo com atuações elogiadas, a química entre os personagens não alcança o mesmo nível da primeira temporada. Isso ressalta como o sucesso de uma série antológica depende não apenas de boas histórias, mas também de elencos que consigam carregar o peso emocional da narrativa.

O paralelo com "The White Lotus"

Uma das comparações inevitáveis é com "The White Lotus", que estabeleceu um padrão elevado para séries antológicas com críticas sociais. Enquanto "Treta" tenta replicar essa fórmula, falta-lhe um ponto de ancoragem claro que conecte as histórias e os personagens de forma mais orgânica. A ausência de Mike White, criador e roteirista de "The White Lotus", também é sentida, já que a nova temporada de "Treta" parece carecer de uma visão unificada.

Os desafios das produções antológicas

Produzir uma antologia bem-sucedida exige um equilíbrio delicado entre inovação e familiaridade. Séries como "Black Mirror" conseguiram manter a relevância ao explorar conceitos distintos em cada episódio, mas mantendo uma identidade clara. No caso de "Treta", o desafio será encontrar um fio condutor capaz de sustentar a série a longo prazo, sem depender exclusivamente da nostalgia pela primeira temporada.

O futuro do formato

Com a proliferação de séries antológicas, o público moderno se tornou mais exigente em relação à qualidade e coerência das narrativas. Plataformas como Netflix, Hulu e HBO Max estão apostando forte nesse gênero, mas o sucesso dependerá de sua capacidade de inovar sem perder a conexão emocional com os espectadores.

A Visão do Especialista

O retorno de "Treta" em um formato de antologia é um movimento ousado, mas arriscado. Embora o potencial para explorar novas histórias seja inegável, a falta de coesão e foco narrativo pode alienar parte do público conquistado na primeira temporada. Para a Netflix, o desafio será equilibrar as expectativas dos fãs com a necessidade de inovar e se destacar em um mercado saturado. Se a plataforma conseguir ajustar sua abordagem ao longo das temporadas, "Treta" pode se consolidar como um dos pilares de seu catálogo.

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