Um vídeo divulgado pela Folha revela a concentração de recursos do programa Calha Norte em municípios eleitorais, enquanto áreas como Melgaço (PA), com o pior IDH do país, permanecem sem investimentos. A reportagem, parte da série "Poder e Devastação", foi gravada após dez horas de navegação pelo delta do Amazonas, confirmando a disparidade na alocação das emendas parlamentares.

Contexto Histórico do Programa Calha Norte
O Calha Norte foi criado em 1985 como estratégia militar para povoar a fronteira amazônica. Inicialmente, o programa contemplava 74 municípios e visava infraestrutura básica, segurança e desenvolvimento socioeconômico nas áreas de fronteira.
Expansão e Transformação em Emendoduto

Entre 2016 e 2022, o número de municípios atendidos saltou para 783, dos quais 589 foram incluídos apenas nesse período. Essa expansão acelerada coincidiu com a mudança de gestão do Ministério da Defesa para o Ministério da Integração Nacional em 2025, facilitando a utilização de emendas parlamentares como principal mecanismo de financiamento.
Desigualdade na Distribuição das Emendas
De acordo com auditoria do TCU, 80% dos R$ 4,5 bilhões distribuídos entre 2015 e 2024 foram destinados a apenas 10% dos municípios beneficiados. Essa concentração favorece áreas com IDH alto ou médio, enquanto municípios de IDH muito baixo recebem menos de um terço dos recursos.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Total de recursos (2015‑2024) | R$ 4,5 bi |
| % para 10% dos municípios | 80 % |
| % de municípios que receberam metade dos recursos | 2,5 % |
| Municípios com IDH alto ou médio | ≈ 70 % |
| Municípios com IDH baixo ou muito baixo | ≈ 30 % |
Exemplo de Concentração: Macapá (AP)
Em Macapá, capital do Amapá, o píer turístico foi revitalizado com verba de emenda do senador Davi Alcolumbre. O projeto, concluído em 2024, inclui um bondinho elétrico e recebeu ampla divulgação nas redes sociais do parlamentar, evidenciando a relação entre investimento público e apoio eleitoral.
Condição Crítica em Melgaço (PA)
Melgaço, com IDH 0,467 – o mais baixo do Brasil –, ainda depende de um lixão a céu aberto como principal solução de resíduos. A ausência de obras de infraestrutura básica, apesar da presença do programa Calha Norte, demonstra a falha na priorização de áreas vulneráveis.
Repercussão no Mercado e na Sociedade Civil
Organizações como a Rainforest Investigations Network e o Pulitzer Center destacam o risco de danos ambientais decorrentes da má alocação de recursos. A falta de investimentos em saneamento e infraestrutura aumenta a vulnerabilidade das comunidades a desastres ecológicos.
Posicionamento do Ministério da Defesa
O Ministério afirma que a escolha dos municípios é prerrogativa dos parlamentares, não do Departamento do Programa Calha Norte (DPCN). Segundo a pasta, o DPCN apenas verifica a documentação, acompanha a execução e exige prestação de contas.
Resposta da Câmara dos Deputados
A assessoria da Câmara declarou que a seleção dos beneficiários deve ser buscada junto aos autores das emendas e aos líderes partidários. Não há indicação de critérios socioeconômicos na definição dos destinos.
Silêncio do Senado
Até o momento, a presidência e a assessoria de imprensa do Senado não se manifestaram sobre a investigação. A falta de resposta aumenta a pressão por maior transparência nos processos de alocação de recursos federais.
Impacto Socioeconômico nas Regiões de Fronteira
21 % dos municípios originalmente contemplados como fronteira ainda não receberam nenhum repasse do Calha Norte. Essa lacuna compromete objetivos estratégicos de segurança, desenvolvimento e integração regional estabelecidos na década de 1980.
Visão de Especialistas em Políticas Públicas
Especialistas apontam que a dependência excessiva de emendas parlamentares cria um "emendoduto" que privilegia interesses eleitorais sobre necessidades reais. A recomendação é a implementação de critérios objetivos, como IDH e indicadores de vulnerabilidade, para a distribuição de recursos.
A Visão do Especialista
O analista de políticas públicas Dr. Carlos Mendes conclui que a continuidade do modelo atual pode aprofundar desigualdades regionais e comprometer a eficácia do programa Calha Norte. Ele sugere a criação de um comitê independente de alocação, com representação da sociedade civil, para garantir que os recursos cheguem prioritariamente às áreas mais carentes.
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