Em 2025, 71,6% das mortes maternas em Pernambuco foram de mulheres negras, segundo o Painel de Monitoramento da Mortalidade Materna do Ministério da Saúde. O dado evidencia uma disparidade racial que ultrapassa o âmbito da saúde e se insere na agenda de direitos humanos.

Panorama estatístico nacional e estadual

Do total de 68.122 óbitos maternos no Brasil, 39.922 (58,6%) ocorreram entre mulheres negras. Em Pernambuco, foram registradas 3.268 mortes, das quais 2.340 foram de negras, revelando um índice superior à média nacional.

Contexto histórico da mortalidade materna no Brasil

Desde a década de 1990, o Brasil tem avançado na redução da mortalidade materna, mas a queda tem sido desigual. Estudos do Ministério da Saúde apontam que políticas de atenção básica não conseguiram eliminar as barreiras socioeconômicas que afetam grupos vulneráveis.

Racismo estrutural e interseccionalidade

A interseccionalidade revela como raça, gênero e classe convergem para intensificar o risco de mortalidade. Mulheres negras, sobretudo as de baixa renda, enfrentam maior dificuldade de acesso a pré-natal de qualidade, exames diagnósticos e unidades de referência.

Impacto econômico e no mercado de saúde

Óbitos maternos geram custos diretos ao SUS e perdas indiretas à economia regional. Cada caso implica gastos hospitalares, afastamento de familiares e redução da força de trabalho, ampliando a carga sobre o sistema de saúde pública.

Comparativo entre 2024 e 2025

Em 2024, 71,4% das mortes maternas em Pernambuco foram de mulheres negras, número que subiu levemente para 71,6% em 2025. A variação discreta indica que as medidas adotadas ainda não alteraram a tendência estrutural.

Cor/Raça Mortes 2025 % do total
Negra (preta + parda) 2.340 71,6%
Branca 881 26,9%
Indígena 15 0,5%
Amarela 3 0,1%
Outras/Não identificada 5 0,2%

Concentração na Região Metropolitana do Recife

A capital concentra 1.387 mortes maternas de gestantes negras, representando quase 60% do total estadual. A densidade populacional, aliada à desigualdade de acesso a serviços especializados, intensifica o problema.

Seminário sobre interseccionalidade e vulnerabilidades em saúde

O 1º Seminário, realizado nos dias 28 e 29 de abril na Fiocruz Pernambuco, abordará justiça reprodutiva, redução de danos e saúde mental.

  • Justiça reprodutiva e acesso ao aborto legal
  • Políticas de redução de danos para usuários de substâncias
  • Saúde mental e identidade de gênero
  • Impacto da criminalização de drogas nas mulheres

Opinião de especialistas

Arturo Escobar, da Escola Livre de Redução de Danos, destaca que "as matrizes de opressão cruzam a vida das pessoas e explicam a vulnerabilidade das negras." Ele enfatiza a necessidade de políticas intersetoriais que integrem saúde, assistência social e justiça.

Políticas públicas recomendadas

Investimentos em unidades de saúde materna nas periferias, capacitação de profissionais para atendimento antirracista e ampliação do pré-natal são urgentes. A criação de protocolos de risco obstétrico com foco racial pode reduzir a mortalidade.

Relação com o SUS e direitos humanos

O SUS, como sistema universal, tem responsabilidade de garantir equidade no atendimento. O fortalecimento da atenção básica e a articulação com serviços de referência são pilares para cumprir os compromissos internacionais de direitos humanos.

Perspectivas e metas para os próximos anos

Meta da OMS: redução da taxa de mortalidade materna para menos de 70 por 100 mil nas próximas duas décadas. Em Pernambuco, alcançar essa meta exigirá a eliminação das disparidades raciais, com monitoramento contínuo e financiamento adequado.

A Visão do Especialista

Os números mostram que a mortalidade materna negra em Pernambuco não é um acidente estatístico, mas o reflexo de políticas insuficientes e de preconceitos institucionalizados. O caminho para a reversão passa por um modelo de saúde interseccional, que reconheça e combata simultaneamente as múltiplas formas de opressão, garantindo acesso universal, de qualidade e culturalmente competente. Só assim será possível transformar a realidade das gestantes negras e cumprir os princípios de justiça reprodutiva.

Compartilhe essa reportagem com seus amigos.