A frota de veículos elétricos e híbridos no Brasil cresceu 90% em 2026, chegando a 628 mil unidades, mas a infraestrutura de recarga ainda enfrenta grandes desafios. Com apenas 21 mil eletropostos públicos e semipúblicos no país, há cerca de um ponto de recarga para cada 30 veículos, um número muito aquém da necessidade para suportar a transição energética no setor automotivo. Para efeito de comparação, na China, onde a frota de veículos eletrificados é de 40 milhões, há um ponto de carregamento para cada 2,3 carros.

Cidade moderna com veículos elétricos estacionados ao lado de postos de carregamento vazios.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

A explosão da frota elétrica no Brasil

A alta no preço dos combustíveis fósseis, impulsionada por conflitos geopolíticos recentes, como a guerra no Oriente Médio, tem levado os brasileiros a buscar alternativas mais econômicas e sustentáveis. Apenas entre janeiro e março de 2026, as vendas de carros eletrificados aumentaram 90% em relação ao mesmo período do ano anterior. Com essa expansão, a necessidade de infraestrutura de recarga tornou-se mais evidente.

Segundo a Bright Consulting, o Brasil deve ultrapassar a marca de 1,4 milhão de veículos elétricos e híbridos leves até 2030. Apesar desse crescimento, os investimentos em eletropostos ainda são insuficientes. Atualmente, 80% dos pontos de recarga estão concentrados na região Sudeste, com pouca cobertura nas demais regiões do país.

Cidade moderna com veículos elétricos estacionados ao lado de postos de carregamento vazios.
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

Infraestrutura de recarga: um gargalo preocupante

O principal obstáculo para a ampliação dos eletropostos no Brasil é o custo elevado de instalação. Um equipamento de recarga rápida pode custar mais de R$ 500 mil. Além disso, a maioria dos pontos de recarga disponíveis no país é composta por carregadores lentos, que podem levar até duas horas para carregar totalmente um veículo elétrico.

Outro desafio é a legislação. Em São Paulo, por exemplo, uma nova lei sancionada em 2026 permite que condôminos instalem estações de recarga em suas garagens, mas a instalação exige uma série de adequações, como o uso de wallboxes, disjuntores exclusivos e sistemas de segurança contra incêndios. Esses requisitos aumentam os custos, dificultando a adesão em larga escala.

O impacto econômico e ambiental

Apesar das dificuldades, o aumento da frota elétrica traz benefícios significativos. A eletricidade utilizada para carregar esses veículos custa cerca de R$ 2 por kWh, muito mais econômico que o preço atual da gasolina, que ultrapassa os R$ 7 por litro em muitos estados. Além disso, os veículos eletrificados contribuem para a redução das emissões de gases de efeito estufa, alinhando-se aos compromissos climáticos internacionais do Brasil.

Estima-se que o consumo de eletricidade para veículos elétricos represente 3% da demanda nacional até 2040, gerando receitas adicionais de R$ 10 bilhões por ano para as distribuidoras de energia. Esse crescimento também deve estimular investimentos em infraestrutura, que podem chegar a R$ 14 bilhões anuais até 2030, segundo o Instituto Acende Brasil.

Exemplos internacionais: o que o Brasil pode aprender?

Enquanto o Brasil ainda caminha para consolidar sua infraestrutura de carregamento, outros países já implementaram estratégias bem-sucedidas. A China, por exemplo, investiu pesado em sua rede de eletropostos, liderando o mercado global de veículos elétricos. Esse esforço foi possível graças ao forte apoio estatal, que financiou a instalação de 16,7 milhões de pontos de recarga.

Nos Estados Unidos, a Tesla se destacou ao desenvolver sua própria rede de supercarregadores, garantindo conveniência para seus clientes. Já na Europa, políticas públicas robustas têm incentivado a expansão da infraestrutura de recarga, com subsídios e parcerias público-privadas.

Iniciativas brasileiras em destaque

No Brasil, algumas empresas estão começando a investir em soluções inovadoras. A Zletric, por exemplo, instalou mais de 2,5 mil eletropostos em 15 estados e lançou um modelo de eletroposto similar aos postos de gasolina, com várias estações de carregamento. A Volvo Car Brasil também investiu R$ 70 milhões para criar uma rede de 75 carregadores ao longo das principais rodovias do país, permitindo viagens de longa distância com veículos elétricos.

O papel da legislação e da conscientização

Além dos investimentos financeiros, é crucial desenvolver uma legislação clara e eficiente para regulamentar a instalação de pontos de recarga, especialmente em condomínios residenciais e comerciais. Diversos estados já começaram a adotar medidas nesse sentido, mas a uniformização das regras em âmbito nacional é essencial para acelerar o processo.

Paralelamente, são necessárias campanhas de conscientização para reduzir a resistência de consumidores que ainda têm receio de adquirir veículos elétricos devido à falta de infraestrutura. A transição energética não é apenas uma questão ambiental, mas um caminho inevitável para a sustentabilidade econômica e social.

A Visão do Especialista

O crescimento da frota de veículos elétricos no Brasil é um passo importante rumo à descarbonização, mas não pode ser desvinculado de uma expansão proporcional da infraestrutura de recarga. Sem essa base, o país corre o risco de criar um gargalo que pode desacelerar o avanço da mobilidade elétrica.

Para Antonio Jorge Martins, professor da FGV-SP, o Brasil precisa aprender com exemplos internacionais e adotar uma abordagem integrada, que inclua incentivos fiscais, parcerias público-privadas, e investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Ele destaca: "A transição energética no setor automotivo exige não apenas vontade política, mas também uma visão estratégica de longo prazo."

Em um cenário de crescente demanda por alternativas sustentáveis, o Brasil tem a oportunidade de se posicionar como líder regional na mobilidade elétrica. No entanto, para isso, será necessário acelerar os investimentos e superar os desafios de infraestrutura e regulamentação. O futuro da mobilidade está cada vez mais próximo, mas é preciso agir agora para garantir que o país esteja preparado.

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