O que é a "doença do viking"? Conhecida medicamente como contratura de Dupuytren, trata‑se de um espessamento progressivo da fáscia palmar que puxa os dedos em direção à palma, limitando a extensão da mão. A condição afeta cerca de 1 % a 2 % da população mundial, mas a incidência chega a 5 % entre homens noruegueses, tornando‑a um problema de saúde pública nos países nórdicos.

Homens noruegueses sentados em uma mesa, discutindo a condição de saúde conhecida como "doença do viking".
Fonte: oglobo.globo.com | Reprodução

Origem histórica e o mito dos vikings

O nome popular surge da associação cultural com os guerreiros nórdicos. Relatos do século XIX descrevem artesãos e marinheiros da Escandinávia com mãos rígidas, o que alimentou a ideia de que os vikings já sofriam da doença. Embora não haja evidência de que a condição fosse prevalente na era viking, o rótulo persiste nos meios de comunicação.

Aspectos genéticos: da herança nórdica ao DNA neandertal

Estudos de associação genômica identificaram variantes em genes como COL1A1 e ZEB1. Essas mutações aumentam a produção de colágeno na fáscia. Curiosamente, análises de DNA antigo revelam que alelos associados à doença foram herdados dos neandertais, explicando parte da alta frequência em populações de origem germânica.

Fisiopatologia: o que acontece na fáscia palmar

O tecido conjuntivo se transforma em nódulos fibrosos e cordões contráteis. Esse processo ocorre devido ao desequilíbrio entre fibroblastos e enzimas de degradação da matriz extracelular, resultando em espessamento e encurtamento da fáscia, que puxa os dedos anular e mínimo.

Fatores de risco e comorbidades associadas

Além da predisposição genética, fatores ambientais intensificam o quadro. Os principais são:

  • Idade avançada (acima de 50 anos);
  • Sexo masculino, com proporção de 8:1 em relação às mulheres;
  • Consumo excessivo de álcool e tabagismo;
  • Diabetes mellitus e epilepsia;
  • Exposição ocupacional a vibrações mecânicas (ex.: operários de máquinas).

Diagnóstico clínico e exames complementares

O diagnóstico baseia‑se na inspeção e na palpação da mão. O médico solicita ao paciente que apoie a palma sobre uma superfície plana; a incapacidade de estender totalmente os dedos indica estágio avançado. Em casos duvidosos, ultrassonografia ou ressonância magnética quantificam a espessura da fáscia.

Opções terapêuticas: da fisioterapia à cirurgia

Não existe tratamento farmacológico que interrompa a progressão. Intervenções conservadoras – como terapia ocupacional e injeções de colagenase – podem retardar o avanço em estágios iniciais. Quando a funcionalidade é comprometida, a fasciectomia (remoção cirúrgica dos cordões) permanece o padrão‑ouro, com taxa de recorrência entre 20 % e 40 %.

Impacto socioeconômico nos países nórdicos

A perda de autonomia nas mãos afeta a produtividade laboral. Dados de sistemas de saúde escandinavos mostram custos diretos e indiretos significativos.

PaísPrevalência em homens (%)Custo anual estimado (US$ milhões)
Noruega5,2112
Suécia4,898
Dinamarca4,585
Finlândia4,073

Desafios de recorrência e acompanhamento a longo prazo

Mesmo após cirurgia, novos cordões podem surgir nos mesmos ou em outros dedos. O acompanhamento anual com avaliação funcional e, quando indicado, ultrassom, permite intervenção precoce, reduzindo a necessidade de procedimentos invasivos repetidos.

Perspectivas de pesquisa e terapias emergentes

Ensaios clínicos com inibidores de TGF‑β e terapia gênica estão em fase avançada. A modulação da via de sinalização que controla a produção de colágeno promete limitar a fibrose sem cirurgia. Além disso, a edição de CRISPR para corrigir variantes genéticas específicas está sendo estudada em modelos animais.

A Visão do Especialista

Para pacientes noruegueses, a conscientização precoce é a melhor estratégia. A combinação de rastreamento genético, mudanças de estilo de vida e intervenções mínimas pode adiar a necessidade de cirurgia por décadas, preservando a qualidade de vida e reduzindo o ônus econômico.

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