A região de Santa Cruz, na Bolívia, tornou‑se refúgio para lideranças do PCC e outras facções, e as autoridades enfrentam obstáculos legais e logísticos para desmantelar esses grupos.

Em 13 de março de 2026, a polícia de Santa Cruz de la Sierra prendeu Sebastián Marset, chefe do Primeiro Cartel Uruguaio (PCU), enquanto dormia em sua residência na capital boliviana.

Marset utilizou identidade brasileira falsificada para jogar futebol local e manteve contato direto com membros do Primeiro Comando da Capital, conforme vídeo divulgado em outubro de 2025, no qual ostentava símbolos da facção.

Como o PCC se estabeleceu em Santa Cruz?

Após a captura de Marset, autoridades bolivianas detiveram cinco colombianos e dois equatorianos, ampliando a investigação sobre redes transnacionais de tráfico de entorpecentes.

Em maio de 2025, Marcos Roberto de Almeida, conhecido como "Tuta", foi apreendido em operação conjunta entre a Polícia Federal do Brasil e a polícia boliviana, revelando a presença de coordenadores de lavagem de dinheiro vinculados ao PCC.

O Ministério Público de São Paulo informou que Tuta figurava na lista vermelha da Interpol, reforçando a cooperação internacional contra o crime organizado.

Por que Santa Cruz funciona como um hub logístico?

Especialistas apontam que a localização estratégica de Santa Cruz, próxima às fronteiras com o Paraguai e a Argentina, e sua infraestrutura de transporte facilitam a movimentação de drogas e recursos financeiros.

Rodrigo Chagas, da UFRR, descreve a cidade como "um ponto de apoio que oferece condições operacionais para que facções se fixem e expandam seus negócios".

A região, situada nas planícies baixas, destaca-se pela produção de soja e trigo, mas também abriga pequenas áreas de cultivo de coca, sobretudo em Yapacaní, na província de Ichilo.

Qual o papel da cocaína na dinâmica criminal?

Relatórios da UNODC indicam que apenas 0,5 % das áreas cultivadas de coca estão em Santa Cruz, porém a cidade concentra 37 % da folha comercializada nacionalmente, servindo como ponto de transferência para laboratórios de refino.

Segundo o professor Eduardo Gamarra, folhas provenientes do Chapare são processadas em Yapacaní e enviadas de avião a Santa Cruz, de onde a cocaína segue para o Paraguai, Argentina e Brasil, alcançando mercados europeus.

Os dados da ONU revelam um aumento de 73 % nas apreensões de pasta base e 115 % nas de cloridrato de cocaína em 2025, evidenciando a intensificação da rota boliviana.

Quais são os entraves legais para desmantelar as facções?

  • Lei 1008/2006 – combate ao tráfico de drogas, porém com penas que muitas vezes não atingem líderes de organizações transnacionais.
  • Lei 2022 de combate ao crime organizado – permite prisão preventiva, mas depende de processos judiciais ainda sobrecarregados.
  • Tratado de extradição com os EUA (2020) – usado para enviar Marset, mas requer cooperação diplomática e pode ser contestado em tribunais bolivianos.
  • Cooperação com a Interpol e a Polícia Federal – essencial, porém limitada por recursos humanos e tecnológicos.

Os principais desafios incluem fronteiras permeáveis, corrupção em postos de controle e um sistema judicial que sofre de atrasos e falta de especialistas em crimes financeiros.

Operações conjuntas, como a "Andes Shield" de 2024 e a ação de 2026 envolvendo autoridades brasileiras, bolivianas e norte‑americanas, resultaram em dezenas de prisões, mas não eliminaram a estrutura de apoio das facções.

O que acontece agora?

O vice‑ministro boliviano de Substâncias Controladas, Ernesto Justiniano, anunciou um plano de reforço de segurança em Santa Cruz, com aumento de efetivo policial, monitoramento de fronteiras e investimentos em tecnologia de rastreamento de cargas.

Autoridades brasileiras continuam monitorando a movimentação de recursos do PCC na Bolívia, enquanto a comunidade internacional pressiona por maior integração judicial para enfrentar a rede criminosa.

Compartilhe essa notícia no WhatsApp com seus amigos.