Deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) chamou pastores anti‑LGBTQIA+ de "cafetões da fé" em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, na noite de 30 de março de 2026, acusando-os de lucrar com o medo e a religiosidade da população.

Hilton, presidente da Comissão da Mulher na Câmara dos Deputados, tem histórico de combate à LGBTfobia e costuma usar o parlamento como palco para denunciar violações de direitos humanos.
O termo "cafetões da fé" foi usado para descrever líderes religiosos que transformam a esperança espiritual em receita financeira, segundo a congressista, que denunciou a prática de "enriquecer" famílias a partir da manipulação do evangelho.
Ela citou o caso do Banco Master, vinculado a uma igreja que opera fintechs como a Clava Forte Bank, apontando a convergência entre instituições financeiras e lideranças evangélicas.
Hilton ainda mencionou Fabiano Campos Zettel, investigado na Operação Compliance Zero, que atua entre o mercado bancário e a Igreja Batista da Lagoinha, liderada por André Valadão.
Qual o pano de fundo histórico da relação entre religião e políticas LGBTQIA+ no Brasil?
Desde a redemocratização, grupos evangélicos consolidaram influência no Congresso, criando blocos que defendem valores conservadores e frequentemente se opõem a direitos civis da população LGBTQIA+.
Essa aliança entre fé e poder político tem raízes na década de 1990, quando igrejas pentecostais começaram a financiar campanhas eleitorais, ampliando seu peso nas decisões legislativas.
- 1995 – Criação da Frente Parlamentar da Família, com forte apoio evangélico.
- 2010 – Aprovação da Lei de Importunação Sexual, usada para criminalizar expressões de identidade de gênero.
- 2023 – STF equipara LGBTfobia e transfobia ao crime de racismo.
- 2024 – Aumento de processos de arquivamento de denúncias contra homofobia nos tribunais estaduais.
O Supremo Tribunal Federal, ao equiparar a LGBTfobia ao racismo, estabeleceu precedente jurídico que deveria garantir proteção efetiva, mas sua aplicação tem encontrado resistência nos tribunais de primeira instância.
Como a deputada avalia a atuação dos tribunais?
Hilton acusa o Judiciário de "debochar" da decisão do STF, ao arquivar processos alegando ausência de dolo, prática que, segundo ela, impede a punição de atos de ódio contra pessoas LGBTQIA+.
Ela relata que, ao acionar a justiça, a maioria dos casos é encerrada sem análise aprofundada, dificultando a efetivação dos direitos conquistados pela comunidade trans e gay.
Em resposta, o Ministério da Justiça destacou a necessidade de treinamento de magistrados para aplicação correta da lei, enquanto o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) prometeu monitorar o cumprimento das decisões do STF.
O que acontece agora? Próximos passos da deputada e do Legislativo
Hilton pretende apresentar requerimento de urgência para que o CNJ emita orientação vinculante aos tribunais sobre a equiparação da LGBTfobia ao racismo, buscando evitar novos arquivamentos.
Além disso, a deputada está mobilizando a Comissão da Mulher para convocar audiências públicas com juristas, líderes religiosos moderados e representantes da sociedade civil, a fim de construir um consenso sobre a proteção dos direitos LGBTQIA+.
Se a pressão política for mantida, especialistas apontam que o cenário pode mudar, forçando os tribunais a adotar critérios mais rígidos para o reconhecimento de crimes de ódio, o que beneficiaria milhares de vítimas.
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