No Lar da Velhice São Francisco de Assis, em Caxias do Sul, um projeto inovador chamado Neuroacolher está utilizando óculos de realidade virtual (RV) para auxiliar na saúde mental dos idosos. A iniciativa, implementada em março de 2026, oferece sessões imersivas que têm como objetivo principal a regulação emocional, o resgate de memórias afetivas e a prevenção do declínio cognitivo.

Como a realidade virtual está sendo usada na saúde mental?
A realidade virtual, tradicionalmente associada a jogos e lazer, está se consolidando como uma ferramenta terapêutica valiosa em diferentes contextos. No caso do Lar da Velhice São Francisco de Assis, os óculos de RV são usados para proporcionar experiências imersivas personalizadas, como caminhadas por praias, florestas e até mesmo visitas virtuais a pontos turísticos.
Durante as sessões, que duram até 20 minutos e acontecem duas vezes por semana, os idosos são expostos a cenários projetados em 360°. A psicóloga que coordena o projeto, Graziela Peroni Tonet, destaca que os vídeos são escolhidos cuidadosamente, levando em consideração o estado emocional e cognitivo de cada participante. Por exemplo, para idosos com demência mais grave, são exibidos vídeos mais serenos e relaxantes, como práticas de mindfulness.

O impacto do projeto Neuroacolher na saúde dos idosos
Os benefícios observados desde a implementação do Neuroacolher são notáveis. A realidade virtual tem mostrado potencial para reduzir sintomas de ansiedade e depressão, condições comuns entre idosos em situações de vulnerabilidade. Além disso, a tecnologia também auxilia na estimulação cognitiva, trabalhando habilidades como memória, atenção, linguagem e raciocínio.
Um dos participantes do projeto, Nêncio Emílio Weber, de 79 anos, relatou como a experiência de passear virtualmente por paisagens naturais o ajudou a se sentir mais tranquilo e engajado. "A sensação é que você está ali, de verdade. É algo que não imaginava ser possível", afirmou Weber.
Outras aplicações da realidade virtual na área da saúde
Embora o foco do Neuroacolher seja a saúde mental de idosos, o uso de óculos de realidade virtual não se limita a essa faixa etária. Pesquisas recentes indicam que a tecnologia tem sido aplicada com sucesso em outras áreas, como a reabilitação cognitiva de crianças com transtornos do espectro autista (TEA) e déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Além disso, a RV vem sendo usada em tratamentos de fobias, reabilitação física e até mesmo em terapias para pacientes com dor crônica.
Os desafios e o custo do projeto
O custo anual do projeto Neuroacolher é de aproximadamente R$ 96 mil, com financiamento proveniente do Fundo Municipal do Idoso (FUMDI). Os recursos são garantidos, em parte, por doações da comunidade, que podem destinar até 6% do imposto de renda devido ao fundo. O Lar da Velhice, que abriga atualmente 85 idosos, depende também de doações e eventos solidários para custear suas operações mensais, que chegam a R$ 300 mil.
A tecnologia como ferramenta de inclusão
O uso da realidade virtual no Lar da Velhice São Francisco de Assis também demonstra como a tecnologia pode ser uma ferramenta de inclusão. Para muitos idosos, como Lisete Diva Antonioli, de 63 anos, a experiência com os óculos de RV foi um desafio inicial, devido à falta de familiaridade com dispositivos tecnológicos. No entanto, Lisete rapidamente se adaptou e hoje é uma das participantes mais entusiasmadas do projeto.
"A sensação é que você viaja junto com os peixinhos. É muito bom, a gente se sente com liberdade", descreve Lisete, após assistir a um vídeo que a levou ao fundo do mar.
O papel do engajamento emocional no tratamento
Um dos diferenciais do projeto é o foco no engajamento emocional. Durante as sessões, os profissionais interagem com os idosos, fazendo perguntas sobre o que estão vendo nos vídeos. "Se no vídeo aparecem girafas, eu pergunto: 'Quantas girafas você vê?', 'Que cores você está vendo?', 'O que isso te lembra?'", explica Graziela, destacando a importância de estimular o raciocínio e a memória durante as atividades.
O que dizem os especialistas sobre a RV na saúde mental?
Estudos publicados em revistas científicas de renome, como o "Journal of Geriatric Psychiatry", indicam que a realidade virtual pode ser uma ferramenta eficaz na redução de sintomas de solidão e isolamento social entre idosos. Além disso, a tecnologia tem mostrado resultados promissores na promoção de bem-estar emocional e na melhora da qualidade de vida.
No entanto, especialistas alertam que o uso da RV deve ser acompanhado por profissionais capacitados e integrado a um plano terapêutico abrangente. "É fundamental entender as necessidades individuais de cada paciente para garantir os melhores resultados", afirma a psicóloga Graziela.
Como ajudar o projeto Neuroacolher?
A comunidade pode contribuir diretamente com o Neuroacolher e outros projetos do Lar da Velhice São Francisco de Assis por meio da destinação de parte do Imposto de Renda. Durante o preenchimento da declaração no programa da Receita Federal, é possível direcionar até 6% do imposto devido para o Fundo Municipal do Idoso (FUMDI). O prazo para realizar essa destinação é até 29 de maio.
A Visão do Especialista
A implementação da realidade virtual no cuidado com idosos é um exemplo claro de como a tecnologia pode ser usada para promover o bem-estar e a saúde mental. No entanto, é crucial que políticas públicas e iniciativas privadas continuem investindo em projetos semelhantes, garantindo acesso a essas ferramentas para populações vulneráveis.
Com o aumento da expectativa de vida no Brasil, iniciativas como o Neuroacolher mostram que é possível transformar a experiência do envelhecimento, promovendo inclusão, engajamento e qualidade de vida. O desafio, agora, é expandir o alcance dessas ações e garantir que mais instituições possam adotar tecnologias inovadoras como a realidade virtual.
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